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quinta-feira, 18 de abril de 2019

Aspectos Históricos da Agricultura Paulista: Parte 19. A cultura do café possibilita a vinda de italianos e espanhóis para São Paulo.

Adilson D. Paschoal
Professor Sênior da Esalq-USP 

Século XIX. Segunda metade. Razões da imigração italiana. Os loiros do Norte e os “braccianti” do Sul. Uma viagem temida, nos porões de navios. Tragédia a bordo. Porto de Santos. Razões da imigração espanhola. 


Desde 1887, com fugas em massa de escravos, os fazendeiros paulistas, especialmente da Alta e Média Mogianas (antigo Oeste Novo), foram substituindo os cativos por imigrantes, principalmente italianos, cujas primeiras famílias vieram para São Paulo em 1870. A tentativa anterior, de imigração europeia de alemães e suíços, para trabalharem na fazenda Ibicaba e outras da região, entre 1840 e 1856, falhara devido ao sistema exploratório de parceria. Até 1887, cerca de 70 mil imigrantes haviam sido empregados em estabelecimentos agrícolas de São Paulo, número esse superior ao dos 50 mil escravos que trabalhavam nas fazendas paulistas. O número de pés de café passara de 221 milhões em 1888 para 685 milhões em 1902. 

Enquanto em São Paulo a economia e a agricultura iam bem, exigindo mão de obra abundante e barata para trabalho no campo, na Itália, pelo contrário, tornara-se desastrosa, com crise econômica sem precedente. Pouco antes do início da grande emigração, em 1870, a Itália ainda era um conjunto de pequenos estados, alguns independentes, outros sob o domínio estrangeiro. Sob o reinado de Vítor Emanuel II forma-se a Nação-Estado, saindo derrotados os partidários de esquerda, republicanos e democratas, que militavam sob Giuseppe Mazzini e Giuseppe Garibaldi. A unificação, iniciada pelo Conde de Cavour, só se completaria em 1870. Desde então, o país passa por período de caos econômico (desemprego e inflação) e político (ausência de lideranças legislativas). A população, particularmente a rural, mais pobre, tinha dificuldade de sobreviver em suas pequenas propriedades ou naquelas em que trabalhava. O mesmo ocorria nas cidades. A emigração passa a ser estimulada; para muitos era emigrar ou ficar e morrer de fome. Sete milhões de italianos deixam o país entre 1860 e 1920. 

Desde a Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, que extinguiu a escravidão no Brasil, agentes brasileiros percorriam o norte da Itália arregimentando agricultores para trabalho nas lavouras de café. O ouro negro cria aí febre parecida com aquela do ouro verdadeiro, que levara tantos imigrantes europeus para Minas Gerais. No anseio de logo partirem, algumas famílias chegavam a viajar a pé, cruzando a maior parte do norte da Itália, sob rigoroso inverno, para tomar os navios que, em Gênova, prometiam passagens gratuitas para Santos. As passagens eram financiadas, assim como os alojamentos e o trabalho inicial na lavoura. Contratos eram firmados, estabelecendo o local e as condições de trabalho. Estimulava-se a vinda de famílias e não de indivíduos isolados e, por isso, vinham homens, mulheres e crianças, todos com a obrigação de trabalhar.

Mapa da Província de São Paulo, de 1886, da Sociedade Promotora de Imigração de São Paulo, em que o oeste paulista aparece como “terrenos despovoados", com a finalidade de atrair imigrantes. Observe as estradas de ferro, assinaladas em preto. Acervo do Arquivo Nacional.

Os primeiros emigrantes que deixaram a Itália eram do norte do país, das regiões de Vêneto e Lombardia. Tratava-se de pequenos proprietários, arrendatários ou meeiros, para quem a possibilidade de acesso a terra no Novo Continente constituía forte estímulo à emigração. Eles eram mais loiros do que a maioria dos italianos e isso interessava também à política brasileira, que preconizava o “branqueamento da raça”, para melhorar a imagem do país no exterior. Os navios partiam principalmente de Gênova. 

Depois vieram os italianos do sul, principalmente das regiões de Calábria, de Campânia e de Basilicata. Os italianos do sul eram morenos, mais pobres e rústicos, geralmente camponeses que não dispunham de nenhuma economia; chamavam-nos de “braccianti” (trabalhadores braçais que ganham por dia). Os navios partiam principalmente de Nápoles. Era voz corrente em São Paulo que tinham sido os imigrantes do norte os que haviam sugerido aos agentes da imigração italiana a vinda dos “braccianti”, com a finalidade de vingarem suas filhas e mulheres.

Encantados pelas suas belezas natas, os fazendeiros paulistas e seu filhos varões quiseram fazer com elas o que faziam com suas escravas, daí a justificada revolta.


Concluída a unificação da Itália em 1870, o país passa por período de caos econômico e político. A população, particularmente a rural, mais pobre, tinha dificuldade de sobreviver em suas pequenas propriedades ou naquelas em que trabalhava. O mesmo ocorria nas cidades. A emigração passa a ser estimulada. Sete milhões de italianos deixam o país entre 1860 e 1920. Emigrantes. Óleos de Raffaello Cambodi e de Antonio Rocco. Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Certa tarde, na casa rústica dos Di Paschoal, na pequena vila de Albini, próxima de Morano Calabro, comuna do mesmo nome, na Província de Cosenza, região meridional italiana e central da Calábria, o jovem Giuseppe Donnadio Siloburo Di Paschoal, então com mais de vinte anos de idade, depois de muito conjeturai com seu pai Paschoal e sua mãe Giovana Pasta, toma a importante decisão de emigrar para o Brasil. A família, que tinha pequeno negócio no pobre vilarejo, passava por muitas dificuldades financeiras, motivadas pela crítica situação econômica do país. Os jovens viviam sob constante ameaça de não terem terras para cultivarem, impedimento sério para quem pensava em constituir família. Sob clima montanhoso e árido, com frequentes e arrasadores terremotos, a agricultura camponesa do vilarejo vivia da produção de oliveiras, para extração de azeite, e de castanhas e frutas, principalmente uva, para o fabrico de vinhos. Sem dinheiro, os camponeses não podiam comprar as mercadorias comercializadas pela família Di Paschoal. Outra alternativa não havia senão emigrar. 

Se outra possibilidade não havia, pelo menos o bem estar do jovem Giuseppe na América era a preocupação maior de seu pai: 

— ... il Brasile produce uva per fare vino di buona qualità? — inquire o progenitor, condicionando, de certa forma, a emigração do filho, pois vinho não podia faltar à mesa italiana. 

— Mi è stato detto di si, in Sao Paulo, sulle colline — responde Giuseppe, tentando convencer o pai; pelo menos nas colinas de São Paulo se produzia a uva... 

Centenas de jovens já haviam deixado a Calábria desde 1870. Notícias correntes davam conta de que dessa região e da vizinha Basilicata, muitos tinham ido para São Paulo “fazer a América”, como se dizia. Embora as notícias fossem desencontradas, parecia que nada podia ser pior do que ficar na dulce Italia de seus antepassados, principalmente na Calábria, uma das regiões mais pobres do país. Sem vocação para a agricultura e já de certa idade, os Di Paschoal não tinham o perfil desejado para os cafezais paulistas. Mas se o dinheiro corria fácil no Brasil, devido ao café, por que não poderia ser bem sucedido um empreendimento comercial? Já velhos, eles não tinham condições de enfrentar o desconhecido; mas não Giuseppe, que trazia em si a força e a coragem da juventude. Com as economias que fizera, põe em ação o seu plano, e ruma para Nápoles. 

Após atravessar as regiões montanhosas e secas da Calábria e da Basilicata, e toda a região de montanhas e vulcões da Campânia, Giuseppe chega a Nápoles. Impressiona-o a beleza da baía e a magnífica visão do Vesúvio. O vapor que o levaria para o Brasil partiria no dia seguinte. 

No cais, uma multidão de emigrantes espera pelo embarque. Suas passagens eram subvencionadas pelo governo brasileiro ou por fazendeiros paulistas. Não era o caso de Giuseppe. Quando o navio se põe a largo, saudando com repetidos apitos a pátria que deixa, Giuseppe não pode conter as lágrimas; com o braço timidamente erguido, responde aos acenos que vêm do cais, mas que não são de seus entes queridos, que deixa para trás e para sempre. 

O navio em que segue viera do porto de Gênova, trazendo muitos outros imigrantes para o Brasil. Em sua rota, passa por Palermo, na Cecília, e Lãs Palmas, na Ilhas Canárias espanhola, onde embarcam outros passageiros, inclusive Joanna Gonçalves Delgado, com quem se casaria no Brasil.

O navio em que segue viera do porto de Gênova, trazendo muitos outros imigrantes para o Brasil. Viagem a bordo de um vapor, com destino a São Paulo. Desembarque de imigrantes no porto de Santos, em 1907. Acervos do Memorial do Imigrante.
A viagem na rústica embarcação é cansativa. Giuseppe e os outros emigrantes, que durante toda a longa travessia se aglomeravam à noite nos porões do navio, mal iluminados e ventilados, onde o barulho incessante dos motores perturba o sono, fazendo muitos adoecerem e mesmo morrerem, e de dia se acotovelavam nos conveses a fim de respirar ar puro, não viam a hora de chegarem ao destino. A esperança de melhores dias suplantava qualquer dificuldade. 

A monotonia no convés, do rugir das ondas no costado, que a quilha do navio ia formando no singrar o mar bravio, é quebrada um dia pelo choro lamentoso de uma mulher, que perdera o filho aquela noite; envolto em mortalha branca, o pequeno corpo da criança aguardava ser atirado ao mar, sepultura de todos que morriam a bordo. Giuseppe reconhece-a, lembrando-se de tê-la perguntado sobre a criança na noite anterior: “Por que chora o teu menino?” “Como posso ajudar-te? A resposta fora breve, de quem muito sofria: “Meu filho está doente”. “Tenho medo que morra”. Tentando consolá-la, embora sabendo da gravidade da situação, Giuseppe só pode dizer a ela o que dissera sua mãe a ele, na despedida: “Não tenha medo. Estamos todos bem aqui.” E para confortá-la: “Logo chegaremos ao Brasil.” 

— Scusi, signora. Per che piange tu bambino? Come posso aiutarte? 

— Mio figlio è malato. Anchio ho paura que muoia. 

— Non habete paura! Stiamo tute benne chi. E poi, dobbiamo arrivare presto a Brasile. 

Passados sessenta longos dias o navio finalmente atraca em Santos. O desembarque de passageiros é rápido; haviam chegado ao Novo Mundo, um mundo de novas esperanças. Na alfândega, o comandante do navio deixa a lista de bordo e a lista de desembarque, com a relação dos passageiros e informes sobre o navio e sua tripulação, o número de pessoas embarcadas, com nome, idade, estado civil, profissão, sexo, religião, instrução, porto de embarque e residência declarada de cada um, além do porto de procedência do navio e aqueles em que realizou escalas. Um a um os passageiros são identificados e em seguida liberados para viagem a São Paulo. 

O porto impressiona os viajantes, pelo número de navios atracados; muitos vapores despejam passageiros e muitos veleiros e vapores recebem preciosas sacas de café, trazidas de muito longe, para serem levadas a lugares ainda mais distantes, na Europa e nos Estados Unidos. Trazidas por carroças do terminal férreo da “Inglesa” (São Paulo Rayway), as sacas são levadas nas costas de carregadores, homens livres, brancos em sua maioria, em fileiras contínuas, tal qual saúvas levando folhas aos sauveiros.

O porto impressiona os viajantes, pelo número de navios atracados; muitos vapores despejam passageiros e muitos veleiros e vapores recebem preciosas sacas de café. Porto de Santos, Docas, ponto de desembarque de passageiros. 1880. Observe o vapor atracado ao fundo. Foto de autor desconhecido.

Por razões parecidas, também vieram da Espanha muitos imigrantes, inclusive das Ilhas Canárias, parada obrigatória dos navios italianos que sempre aí aportavam antes de chegarem ao Rio de Janeiro e Santos. 

A crise política-econômica na Espanha, assim como em toda a Europa, ocorrida na segunda metade do século XIX, com superpopulação e elevado número de desempregados e desocupados nas cidades e no campo, e a grande demanda de mão de obra para os cafezais paulistas, levaram à emigração. Epidemias de doenças agrícolas e de pragas da agricultura, que prejudicaram sobremaneira as vinhas espanholas, fizeram com que o governo buscasse países que pudessem oferecer melhores condições para os seus cidadãos. O Brasil é escolhido. Em 1865, o fluxo migratório, em particular para São Paulo, estava regularizado, o que fez com que muitos pequenos agricultores das regiões de Andaluzia, Galícia, Catalunha e Ilhas Canárias viessem trabalhar nas fazendas de café de São Paulo. 

A migração espanhola é a que traz famílias mais numerosas, só superada em número de imigrantes pelos italianos e portugueses. Os espanhóis fixam-se em sua maioria no Estado de São Paulo, onde, com o tempo, adquirem pequenas propriedades rurais. Muitos não chegam a sofrer as agruras do labor agrícola, dirigindo-se antes para centros urbanos, onde se dedicam ao comércio de comestíveis, de metais usados (ferro velho), de hospedaria, e aos ofícios de carpintaria, sapataria, alfaiataria e trabalhos domésticos.

A migração espanhola é a que traz famílias mais numerosas, só superada em número de imigrantes pelos italianos e portugueses. Os espanhóis fixam-se em sua maioria no Estado de São Paulo. Embarque de café no porto de Santos, 1880. Fotografia de autor desconhecido.
Continua.

Referência.
Paschoal, A.D. História de uma família. Genealogia à luz da história. Tomo II. Séculos XIX e XX. 403 p. Piracicaba, 2010.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Aspectos Históricos da Agricultura Paulista: Parte 18. Oeste Novo. Ribeirão Preto: das senzalas às colônias.

Adilson D. Paschoal
Professor Sênior da Esalq-USP

Vila de São Sebastião do Ribeirão Preto (1870-1886). O café substitui culturas de subsistência e criação de gado. Eleição no Brasil Império. Fatores favoráveis à cafeicultura no Oeste Novo. Alta Mogiana e imigrantes italianos. De senzala à colônia.


As terras roxas recém descobertas na Capela de São Sebastião do Ribeirão Preto (Ribeirão Preto, 1856) atraíram muitos pioneiros, que se direcionaram ao Oeste Novo em busca de áreas propícias para seus cafezais. Com o passar do tempo e a substituição das culturas tradicionais, de subsistência e de criação de gado, pela cultura do café, o povoado cresce em ritmo acelerado, atraindo muitas famílias paulistas e mineiras. Em abril de 1870, cria-se a freguesia de São Sebastião do Ribeirão Preto, fixando-se seus limites. Pouco tempo depois, em julho do mesmo ano, paróquia é criada. Transcorrido apenas um ano da ereção da freguesia, São Sebastião é elevado à categoria de vila, com o nome de São Sebastião do Ribeirão Preto, desmembrando-se de São Simão.

Como freguesia, Ribeirão Preto passa a pertencer ao termo de Casa Branca, comarca de Mogi Mirim. Posteriormente, passa a pertencer, sucessivamente, às comarcas de Casa Branca (em 1872), de Batatais (em 1875) e de São Simão (de 1877 a 1892). Em 1878, constitui-se sede da comarca de São Simão. A elevação à cidade dá-se em 1889, passando a ser sede de comarca.

São Sebastião do Ribeirão Preto era, em seus primórdios, um conglomerado de fazendas próximas do Caminho de Goiás (que passava por Franca), apossadas pacificamente para depois serem legitimadas. Não havia pousos nessa região. Uma das primitivas fazendas era Rio Pardo, tendo pouco mais de 13.000 alqueires, apossada pelo português José Dias Campos em 1811, que, com seus filhos, abriu vários caminhos de acesso às freguesias de Batatais e de Casa Branca, via São Simão. Foi ele quem deu o nome de Ribeirão Preto ao ribeiro que corta o local. Parte da fazenda acabou ocupada por posseiros, dando origem a conflitos de terra que só foram resolvidos em 1846 com a compra de 10.000 alqueires pela família Reis de Araújo, ao preço de quatro contos de réis. Essa grande gleba deu origem a cinco fazendas. Dos 263 alqueires da fazenda da Barra do Retiro foram doados 64 alqueires para o patrimônio eclesiástico de São Sebastião do Ribeirão Preto, a fim de levantar povoado, marcando o centro da área que viria se tornar município. O processo de doação foi concluindo na vila de Casa Branca, em agosto de 1865.

Além dos Reis de Araújo outras famílias, oriundas do sul de Minas Gerais e da circunvizinhança de Mogi Guaçu, em São Paulo, começaram também a povoar a região no início do século XIX, dentre as quais Borges da Costa, Alves da Silva, Bezerra Cavalcanti, Nazareth de Azevedo e Soares de Castilho.

A vila de São Sebastião do Ribeirão Preto não tinha mais do que 5.000 habitantes quando foi criada, distribuindo-se pelas fazendas e pelo arraial. Apesar de a ereção da nova vila ter ocorrido em 1871 sua primeira Câmara Municipal só seria implantada em 1874. Os primeiros vereadores foram eleitos em votação ocorrida em 22 de fevereiro de 1874 e apurada em 18 de junho de 1874, tendo sido realizada pela Câmara Municipal de São Simão.

A vila de São Sebastião do Ribeirão Preto não tinha mais do que cinco mil habitantes quando foi criada, distribuindo-se pelas fazendas e pelo arraial. Apesar de a ereção da nova vila ter ocorrido em 1871 sua primeira Câmara Municipal só seria implantada em 1874. Matriz de Ribeirão Preto, no local onde se ergueu, em 1856, uma capela. Gravura de autor desconhecido.

Durante o Império qualquer cidadão que se julgasse habilitado podia solicitar, verbalmente ou por escrito, sua inscrição no quadro de eleitores, para uma das duas categorias existentes: eleitor imediato e eleitor geral. Se fosse do sexo masculino, com idade mínima de vinte e cinco anos (exceção feita aos casados, militares, bacharéis e religiosos) poderia ser qualificado para a primeira categoria se tivesse renda anual igual ou superior a 100$000 réis, ou para a segunda se tivesse renda igual ou superior a 200$000 réis. Os eleitores imediatos tinham o direito de eleger vereadores e juízes de paz; os eleitores gerais além dos direitos conferidos aos eleitores imediatos eram elegíveis como eleitores do Colégio Eleitoral, condição que lhes assegurava o direito de votar nas eleições para deputados, senadores e conselheiros provinciais. Os eleitores gerais podiam ainda concorrer aos cargos de deputados e senadores, desde que comprovassem renda líquida anual igual ou superior a 400$000 réis e 800$000 réis, respectivamente.
A primeira Câmara Municipal da vila do Ribeirão Preto é empossada no dia 4 de junho de 1874, quando assumem funções os vereadores eleitos, tendo o coronel João Gonçalves dos Santos, de trinta e seis anos de idade, como seu primeiro presidente. Por força de lei, a presidência da Câmara era ocupada pelo vereador com maior número de votos na eleição geral. Por isso, o coronel João Gonçalves tornara-se seu primeiro presidente. Como as câmaras municipais exerciam funções meramente administrativas, o presidente da Câmara era o “prefeito” da época. Assim sendo, o primeiro prefeito de Ribeirão Preto foi o coronel João Gonçalves dos Santos. Seu mandato foi curto, entretanto, deixando o cargo em 28 de agosto de 1874, por ter tomado posse como juiz de paz, também o primeiro da nova vila.

A produção de café torna-se a primeira atividade agrícola intensiva de Ribeirão Preto. Em 1870, alguns proprietários de terras começam a formar seus cafezais; dentre eles estavam Manoel Otaviano Junqueira, José Bento Junqueira, Rodrigo Pereira Barreto e João Franco de Moraes Octávio. Pouco depois, vieram para a região Henrique Dumont, Martinho Prado Júnior e Luiz Pereira Barreto, adquirindo terras para cultivar café.

A produção de café torna-se a primeira atividade agrícola intensiva de Ribeirão Preto. Em 1870, alguns proprietários de terras começam a formar seus cafezais. Ensacamento de café feito por escravos. Fotografia de autor desconhecido.

A partir de 1870, uma somatória de acontecimentos contribui para o aumento e a modernização da produção cafeeira no Oeste Novo: a excelência do solo, a legalização das terras no país, a decadência da produção cafeeira no vale do Paraíba, o movimento abolicionista e a construção da estrada de ferro Mogiana, iniciada em Campinas em 1872, passando por Casa Branca em 1878, chegando a Ribeirão em 1883. Tais características rapidamente colocam a região de Ribeirão Preto no centro da nova fronteira agrícola, assumindo a vanguarda da produção cafeeira paulista, transformando-se em uma das mais ricas regiões do país.

Em 1876, Luiz Pereira Barreto, médico formado pela Universidade de Bruxelas, escritor e cafeicultor carioca, publica diversos artigos no jornal “A Província de São Paulo” (depois “O Estado de São Paulo”) sob o título: “Terra Roxa”, onde enaltece a riqueza e a fertilidade das terras da região de Ribeirão Preto para o cultivo de café; também introduz a variedade Bourbon, originária de ilha do mesmo nome, pertencente à França, no Oceano indico. Em 1877, Martinho Prado Júnior publica um artigo no mesmo jornal, prevendo grande futuro para a região, que “têm as melhores terras para o café do Brasil e do mundo.”

Desde 1870, o café produzido no município era conhecido na Europa e nos Estados Unidos pelo nome das próprias fazendas que o produziam: “Café Guatapará”, “Café São Martinho”, “Café Monte Alegre” e outros.

Em 1883, com a chegada dos trilhos da Mogiana a Ribeirão Preto muitas estradas de ferro “cata-café” são construídas para escoar a safra da rubiácea de dentro das fazendas, substituindo, dessa maneira, as tropas de mulas. Em 1886, a população do município dobrava, chegando a quase onze mil moradores. Todos os habitantes que eram proprietários de imóveis na vila também o eram no campo. O número de fazendas com escravos girava em torno de 48%, em geral com número baixo de serviçais.


Em 1883, com a chegada dos trilhos da Mogiana a Ribeirão Preto muitas estradas de ferro “cata-café” são construídas para escoar a safra da rubiácea de dentro das fazendas, substituindo, dessa maneira, as tropas de mulas. Acima: transporte de café por tropas de mulas. Abaixo. Transporte de café em vagões cargueiros. Fotografias de autores desconhecidos.
A expansão da cultura do café demandava mão de obra. A maioria dos trabalhadores era livre em Ribeirão Preto, havendo pequeno número de escravos negros. A vinda de imigrantes, principalmente italianos, assume papel fundamental na consolidação do café na vila, sendo responsável pela manutenção das lavouras mesmo antes da abolição da escravatura. A chegada da Mogiana favorece não apenas o escoamento da produção como facilita o transporte dos imigrantes, provocando a expansão da área urbana e a diversificação do comércio, quando a vila passa a ser centro distribuidor de mercadorias para as fazendas e para as cidades não servidas pela ferrovia.

A prosperidade de Ribeirão Preto, como novo centro cafeeiro, atrai diversas correntes migratórias. Após a extinção do tráfico negreiro, em 1850, o investimento em escravos deixara de ser vantajoso, provocando grande especulação nos preços dos cativos. A partir de 1881, uma lei provincial estabelecia imposto de 2:000$000 sobre cada escravo entrado na província de São Paulo. Por esse motivo, os fazendeiros do Oeste Novo, como se chamava a região de Ribeirão Preto, optam pela imigração europeia. A partir do final da década de 1880 os imigrantes europeus contam com subsídios do governo provincial para a compra de passagens até o Brasil. A maioria dos imigrantes que vem para São Paulo é de origem italiana, das regiões de Vêneto, Lombardia, Campania e Calábria.

Houve tentativa anterior de trazer norte-americanos para São Simão, em 1865. Algumas famílias de agricultores confederados, que fugiam da Guerra da Secessão, concordaram em vir, ao saber que nessa vila se produzia algodão. Entrementes, uma praga de lagartas ataca os algodoais dois anos depois, levando ao fracasso o empreendimento. As famílias mudam-se então para Americana.

São italianos, entretanto, os que se estabelecem em Ribeirão e em São Simão. Com eles as senzalas cedem seus espaços para colônias. Surge o contrato de colonato, em que o colono recebe entre 40$000 e 50$000 réis por ano, por mil pés de café cuidados. Recebe, também, de 300 a 600 réis por colheita de um alqueire de café (50 litros). Dessa forma, uma família de cinco adultos podia ganhar cerca de um conto de réis por ano. Após muito tempo de trabalho árduo e duras economias começam a comprar pequenos lotes de terras ─ sítios geralmente ─ produzindo alimentos para consumo interno.

Além dos colonos estrangeiros havia os nacionais, chamados de camaradas, que exerciam múltiplas funções, desde as corriqueiras tarefas de secagem, de armazenamento e de transporte do café, até aquelas consideradas muito pesadas para os colonos italianos, como a derrubada de matas e a implantação inicial das lavouras. Fiscais controlavam os colonos e feitores controlavam os camaradas. A gestão da fazenda ficava por conta dos administradores. Fazendeiros muito ricos levavam, com frequência, suas famílias a Paris, percorrendo a cidade luz em suas carruagens e cavalos, que seguiam junto com seus donos nos navios a vapor.

Nem todos os imigrantes que vieram para trabalhar nas lavouras de café eram agricultores na Itália. Muitos passavam por camponeses apenas para poderem vir para o Brasil. Não se adaptando à dura vida no campo ou passados longos anos de trabalho nas lavouras eles tentam negócios nas cidades, abrindo lojas de armarinhos, fábricas de cerveja, de massas, de sorvetes e de licores, pequenas indústrias de carroças e charretes, ou ainda marmorarias, joalherias, marcenarias e tantas outras. Em Franca, como em muitas cidades, havia, em 1902, quatro fábricas de cerveja, todas de italianos.

As ricas terras da Mogiana atraiam artesãos em grande número, bem como profissionais liberais, que já se formavam em escolas brasileiras. Muitos imigrantes tinham sido artesãos em seus países, passando a exercer suas profissões também no Brasil. Durante a fase áurea do café, grande número de médicos baianos aflui para diversas cidades da Mogiana.

A prosperidade de Ribeirão Preto como novo centro cafeeiro atrai muitos imigrantes. Após a extinção do tráfico negreiro, em 1850, o investimento em escravos deixara de ser vantajoso. Os fazendeiros do Oeste Novo, como se chamava a região de Ribeirão Preto, optam pela imigração europeia. A maioria dos imigrantes era de origem italiana. A configuração do campo muda substancialmente, senzalas dando lugar a colônias. Trabalhadores livres em fazenda de café Guataporá, em Ribeirão Preto. Foto de autor desconhecido.
Continua.

Referência.
Paschoal, A.D. História de uma família. Genealogia à luz da história. Tomo II. Séculos XIX e XX. 403 p. Piracicaba, 2010.

EndNote e Mendeley: agenda abril de 2019

Imagem: G4RH

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Confira a agenda de Capacitação em Abril/19.

Indicamos também materiais de apoio ao pesquisador:

E-books da SpringerNature (2005-10) disponível para acesso



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Conforme Contrato 03/2019, comunicamos que o acesso aos e-books da SpringerNature do período de 2005 a 2010 (conforme anexo I do referido Contrato) estão disponíveis para a comunidade USP, através do link https://link.springer.com/books/a/1

Reforçamos que qualquer intercorrência seja comunicada para o representante exclusivo DotLib  (Sr. Marcos Criado marcos.criado@dotlib.com.br) com cópia para a DGFA (atendimento@sibi.usp.br), como de praxe. 


Inaie Marchizeli Wenzel
Chefe Técnica da Divisão de Gestão de Formação
e Manutenção do Acervo (DGFA)
Sistema Integrado de Bibliotecas

Dra. Maria Fazanelli Crestana
Chefe Técnica do
Sistema Integrado de Bibliotecas

Nova coleção de e-books da Wageningen Academic Publishers



A Divisão de Biblioteca, com recursos da Diretoria da ESALQ, assinou a coleção de e-Books da Wageningen Academica Publishers- WAP, com conteúdos de Ciência Animal, Ciência dos Alimentos, Agronegócios, Desenvolvimento Rural, Agricultura e Meio Ambiente. A Editora está ligada a uma das mais prestigiosas instituições de ensino e pesquisa, a Wageningen University & Research.

São 155 títulos de Ciência Animal, desde 2002-2016, incluindo atualização de 2017; 95 títulos de Ciência dos Alimentos, de 2002-2016; 115 Títulos de Ciências Sociais, de 2002 - 2016; e 74 títulos de Agricultura e Ciências Ambientais, de 2002-2016.

No mesmo portal há uma coleção de sete títulos de periódicos, que não foram assinados, mas com acesso aberto parcialmente para alguns artigos.

O acesso à coleção pode ser feito através da página da Biblioteca: https://www.esalq.usp.br/biblioteca/portais-de-pesquisa , ou diretamente na página da WAP https://www.wageningenacademic.com/

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Acesso ao Turnitin restabelecido na USP

Informamos que o acesso à ferramenta Turnitin de prevenção de plágio foi restabelecido na USP. 

Colocamo-nos à disposição para esclarecimentos, sempre que necessário.
  
Atenciosamente,

Elisabeth Adriana Dudziak | Departamento Técnico - SIBiUSP 

Heinonline assinada e disponível para acesso



Comunicamos oficialmente que o acesso à HeinOnline está disponível para toda a comunidade USP até 17.03.2020.

Reforçamos que qualquer intercorrência seja comunicada para o representante exclusivo PTI (vendas@pti.com.br) com cópia para a DGFA (atendimento@sibi.usp.br). 

Inaie Marchizeli Wenzel | Chefe Técnica da Divisão de Gestão de Formação e Manutenção do Acervo | Departamento Técnico - SIBiUSP

Think.Check.Submit. – Ferramenta para identificar revistas confiáveis




Partilhar resultados de pesquisa com o mundo é a chave para o progresso da área científica e da sua carreira. Mas, com a quantidade de publicações existentes, como ter a certeza se uma determinada revista é confiável? 
Há uma ferramenta bem interessante e apoiada por organismos internacionais como oCOPEDOAJISSN International CentreLIBEROASPA e STMdentre outros: trata-se do Think. Check. Submit.uma iniciativa que “auxilia o pesquisador a identificar periódicos confiáveis para suas pesquisas. Por meio de uma série de ferramentas e recursos práticos, esta iniciativa internacional e intersetorial, tem como objetivo educar pesquisadores, promover a integridade e construir confiança em pesquisas e publicações confiáveis”.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Aspectos Históricos da Agricultura Paulista: Parte 17. Os barões do café e suas fantásticas histórias, riquezas e poderes.

Adilson D. Paschoal
Professor Sênior da Esalq-USP

Baronato. Silva Prado: os maiores produtores de café do mundo. Fazenda Brejão: a primeira do sertão a ter cultivo de café. Dona Veridiana: precursora do feminismo. Barão de Casa Branca. Rapto de uma donzela. Pelos trilhos da Mogiana, o café gera progresso e traz o Imperador para inaugurar a ferrovia.


No Brasil, como em Portugal, o baronato servia como ostentação de poder político entre a elite, notadamente entre os fazendeiros. A partir do Segundo Império e o ciclo do café, são os grandes cafeicultores que passam a ostentar tais títulos, ficando conhecidos como barões do café. O baronato legitimava o poder local, da mesma forma dos coronéis da Guarda Nacional (que seria extinta em 1911), fazendo-os intermediários entre o povo e o governo. Os títulos não eram herdados, tendo que se pagar vultosa monta pela honraria, mesmo se o filho de um barão quisesse perpetuar o título do pai. Por essa razão, os baronatos geralmente se restringiam a uma pessoa; no caso de haver mais de um nobre com o mesmo título, raramente pertenciam à mesma família. Os barões do café eram mais comuns entre os fazendeiros do vale do Paraíba e do Rio de Janeiro, não sendo de muita importância entre os cafeicultores do Oeste Paulista. O baronato existiu até o advento da república, para a qual muitos barões deram seu apoio, principalmente após a abolição da escravatura, sendo dois dos principais focos da insurgência as vilas de Itu e de Sorocaba.

Em 1864, uma notícia corre célere por entre as ruas bem traçadas de Casa Branca. A fazenda Brejão fora vendida. Seu comprador não era outro senão Martinho da Silva Prado, paulistano da mais alta estirpe, primo meio-irmão de Antônio da Silva Prado, Barão de Iguape, que fez fortunas com o café, tornando-se um dos homens mais rico de sua época. Sua riqueza anterior vinha do açúcar e do que ganhava como coletor de impostos em São Paulo. A esposa de Martinho, Veridiana da Silva Prado, filha do Barão de Iguape, foi escolhida por seu pai, quando tinha apenas treze anos de idade, para ser a companheira eterna de Martinho, seu primo meio-irmão. O destino mudaria seus planos. Quando os filhos de Viridiana chegaram à idade adulta, ela escandaliza São Paulo com uma inusitada decisão: resolvera separar-se de Martinho, assumindo a chefia da família, invertendo o rígido sistema patriarcal vigente. Inconformista e incentivadora do desenvolvimento cultural, artístico e político muda-se para um palacete em 1848, que ficou conhecido como Chácara Dona Viridiana, onde se reuniam artistas e intelectuais.

Martinho da Silva Prado, paulistano da mais alta estirpe, primo meio-irmão de Antônio da Silva Prado, Barão de Iguape, acaba se tornando genro dele, ao se casar com Veridiana da Silva Prado. Martinho adquire a fazenda Brejão, em Casa Branca (Santa Cruz das Palmeiras), no ano 1864, dando início à cafeicultura na região. Barão de Iguape, Antônio da Silva Prado (Foto da família Silva Prado).


Fazenda Brejão. Tulha, casa de beneficiamento e terreiros de secagem com muros de arrimo. Foto de autor desconhecido.

Na fazenda Brejão, na região de Casa Branca (a freguesia comprendia grande área, hoje formada pelos municipios de São José do Rio Pardo, São Sebastião da Grama, Vargem Grande do Sul, Santa Cruz das Palmeiras, Mococa, Tambau) Martinho introduz a cultura do café, montando toda infraestrutura para plantio e processamento dos grãos. Além dessa fazenda, desbrava muita mata virgem para implantar outra, a Santa Veridiana, também em Casa Branca, que, em 1866, tornar-se a primeira a oeste de Mogi Guaçu a dedicar-se ao cultivo de café. Com a criação, em 1881, da freguesia de Santa Cruz das Palmeiras, desmembrada da agora cidade (1872) de Casa Branca, ambas as fazendas passam a fazer parte do novo povoamento.

Para implantar as áreas produtivas, Martinho teve a ajuda dos filhos o conselheiro Antônio da Silva Prado e o doutor Martinho da Silva Prado Júnior, este abolicionista, advogado, conhecido como Martinico Prado, que se torna o maior produtor de café de São Paulo, e um dos homens mais ricos do país. Seu irmão Antônio foi deputado estadual, ministro da Agricultura, senador e prefeito da capital. Com duas propriedades rurais na região de Ribeirão Preto (Sertãozinho), as fazendas São Martinho (comprada) e Guatapará (formada), os irmãos Silva Prado foram, por certo tempo, os maiores produtores de café do mundo.

Antiescravagista, culpando o Imperador D. Pedro II de ser o responsável pela escravatura, que, segunda dizia, era um “cancro horrível que arrasta a nossa sociedade para um abismo”, Martinico, além de defender o fim da escravidão, iniciou campanha pela vinda de imigrantes europeus, fundando, em 1886, a Sociedade Promotora da Imigração. No ano seguinte, embarca para a Itália a fim de definir critérios para o embarque de trabalhadores para São Paulo, a partir do porto de Gênova. Em 1888, a Leia Áurea põe fim à escravatura no Brasil.

Com duas propriedades rurais na região de Ribeirão Preto (Sertãozinho), as fazendas São Martinho e Guatapará, os irmãos Silva Prado foram, por certo tempo, os maiores produtores de café do mundo. Fazenda Guatapará, sua ferrovia. Acervo da família Silva Prado.
Muitas são as histórias de barões do café; a que narro, em seguida, é de Vicente Ferreira de Syllos Pereira, Barão de Casa Branca, de quem vim a ser trineto. Filho de um português de Braga, norte de Portugal, que viera para o Brasil em busca de riqueza, radicou-se em Caldas, passando depois para São João Del Rei. Em Casa Branca, para onde se mudou, Vicente chega com sua esposa Antônia Maria de Oliveira e um bebê de um ano. Tinha ele vinte e quatro anos de idade. Na freguesia da Casa Branca, conhece os Gonçalves dos Santos e os Nogueira de Barros, famílias de antigos povoadores do local. De Urias Emídio Nogueira de Barros aprende a arte do tropismo, que já praticava sem ter a experiência do famoso sertanista, agora com quarenta e dois anos de idade, iniciando negócio com mercadorias e tropas.


Por ocasião do batismo do primeiro neto do tenente Urias, ocorrido em janeiro de 1834, o jovem Vicente tivera com o tenente Urias interessante e surpreendente colóquio. Falando de Sorocaba, com seu sotaque lusitano pesado, aprendido de seu pai, confidencia-lhe segredo para o qual pede discrição de comentários. A seguinte história é por ele contada:

— Certa ocasião, no final de 1832 — disse ele — quando eu estava com uma tropa a negócios em Sorocaba, conheci Antônia Maria de Oliveira, por quem me apaixonei. — Com o tempo, ela me correspondeu com seu amor à distância. Porém, sem ter o concentimento do pai para poder sequer com ela conversar, por julgar-me imaturo e um desconhecido sem eira nem beira, “um pobretão filho de um reinol”, como me disse um dia, “que para cá viera em tempo recente para ganhar dinheiro e depois voltar rico a Portugal”, eu louco de paixão por ela e ela perdida de amor por mim, tomei decisão drástica: mandei raptar a donzela.


Face à surpresa e atenção do tenente àquela confissão tão dramática e tão inesperada, continuou Vicente:

— Assim foi que, em noite que fazia muito calor, mandei dois de meus camaradas de maior confiança buscarem Antônia Maria. — Vendo-a ainda acordada e sozinha no terraço dos fundos da morada, onde tomava fresca, os dois fieis vassalos cumprem a ordem que receberam, trazendo-a, a cavalo, a toda brida, até local isolado, onde eu os aguardava. Temendo a perseguição do pai da moça, rumamos na mesma noite para Caldas. E foi assim que Antônia Maria de Oliveira tornou-se minha esposa, casando-nos assim que chegamos.

Perplexo diante da espontânea narrativa do apaixonado e determinado jovem Vicente, o tenente Urias só consegue fazer breve comentário. Disse ele:

— São tão poucas e afortunadas as moças nestes sertões, que muito bem fazem seus pais em mantê-las fechadas a sete chaves, como as mais preciosas jóias que se pode ter...

Certamente pensava ele em suas filhas ainda solteiras, que deveriam ser muito bem protegidas, como a Coroa do Império, “antes que algum aventureiro lançasse mãos delas.”

Vicente e Antônia Maria casaram-se em final de 1832 e tiveram treze filhos. O café trouxe muitas riqueza para a família, conseguidas ao longo do tempo, pela produção de várias fazendas na região de Casa Branca e do comércio de materias e produtos para a lavoura.

No ano 1878, a cidade inicia período de grande prosperidade graças à rubiácea, com a Estrada de Ferro Mogiana chegando a Casa Branca, de onde partia o ramal do Rio Pardo, tornando-se entreposto comercial ainda mais importante. Em 1880, uma lei provincial concedia à Cia. Mogiana o privilégio para a construção de uma estrada ligando Casa Branca a Ribeirão Preto, passando por São Simão. Em 1882, inaugura-se o trecho de São Simão, e, em 1883, o de Ribeirão Preto. Todo o café desta rica região passa a ser escoado por Casa Branca.

Era o dia 15 de setembro de 1878, quando o imperador D. Pedro II chega a Casa Branca. Vinha para conhecer a cidade de tantas tradições históricas, inaugurar oficialmente a última estação construída da Mogiana, e dar um passeio pelas boçorocas, que, já por essa época, corroíam grande parte dos solos da cidade. O séquito imperial era constituído pela imperatriz Dona Teresa Cristina, o conselheiro João Lins Vieira Cansassão de Sinimbu, o Visconde do Bom Retiro, o Conde de Iguaçu, Carvalho de Moraes, o Barão de Maceió, o Barão de Pirapitingui, o Conde dos Três Rios, o conselheiro Antônio Moreira de Barros, e o Barão de Ataliba Nogueira, que depois se tornaria presidente da Cia. Mogiana.

O imperador, que estava em visita a São Paulo, de 11 a 14 de setembro, viria à Casa Branca no dia seguinte. O presidente da Província havia enviado ofício aos chefes do Partido Liberal casabranquense, solicitando que preparassem a recepção. Face ao pouco interesse deles, acabou-se apelando para o Partido Conservador, que atendeu prontamente à solicitação. Era chefe do Partido Conservador o tenente-coronel da Guarda Nacional Vicente Ferreira de Syllos Pereira, depois Barão de Casa Branca, que colocou sua residência para recepcionar os augustos visitantes. O Partido Liberal defendia os interesses dos senhores rurais e da classe média urbana sem envolvimento direto com a escravidão. Por sua vez, o Partido Conservador defendia a manutenção do domínio político das elites escravocratas rurais

Vicente tinha, por essa época, sessenta e oito anos de idade. Era próspero negociante em Casa Branca, morando em amplo e quase luxuoso solar, em meio à grande terreno, verdadeira chácara, onde ele plantara cerca de cem jabuticabeiras. No andar térreo ficava a casa comercial, e, no superior, a residência, com vários e amplos salões, à moda portuguesa.

Suas majestades chegam de trem à cidade, desembarcando às nove horas e vinte e cinco minutos no ponto terminal da Mogiana, sendo recepcionados por grande multidão de casabranquenses e de pessoas vindas de cidades circunvizinhas, desejosas de conhecer o imperador e especialmente a imperatriz, de origem siciliana, que as más línguas diziam ser de baixa estatura, manca e muito feia, a ponto de D. Pedro II, que se casara por correspondência, quase ter desistido do enlace, pretendendo inclusive mandá-la de volta à Itália. É o que corria de boca em boca em toda a província.

Tão logo desembarcam, dirigem-se de trole à residência do tenente-coronel Vicente, onde são acomodados, descansando por um quarto de hora. Logo após o breve repouso, o séquito dirige-se à Matriz de Nossa Senhora das Dores, o prédio mais suntuoso da cidade, indo em seguida conhecer uma boçoroca, nos subúrbios da cidade. Sua majestade é visitada por todos os conservadores de Casa Branca, visto a recepção dever-se quase exclusivamente a eles. A Câmara Municipal não comparece incorporada, como de praxe, por não ter sido convidada.


O tenente-coronel Vicente Ferreira de Syllos Pereira era próspero negociante em Casa Branca, morando em amplo e quase luxuoso solar No andar térreo ficava a casa comercial e, no superior, a residência, com vários e amplos salões, à moda portuguesa. Neste sobrado, o imperador D. Pedro II foi recepcionado em 1878. Barão de Casa Branca e Mariana Umbelina de Pádua Syllos, Baronesa de Casa Branca. Residência do Barão, em foto de 1912. Arquivos do Dr. Airton Dias Paschoal.
Após o almoço, Dom Pedro II e comitiva deixam Casa Branca à uma hora da tarde, embarcando em comboio na estação do Aterradinho. O coronel Vicente não pode assistir “ao bota-fora de ss.mm. porque lhe pregaram uma peça.” Honório de Syllos conta, no jornal Correio Paulistano (o primeiro de São Paulo e o terceiro do país), que os liberais, adversários políticos dos conservadores, roubaram o trole do tenente-coronel, impedindo-o de ir até o Aterradinho, que distava cerca de dois quilômetros da cidade, para despedir-se de suas majestades.

Eis a manchete dada pelo jornal paulistano, na ortografia da época:

Ladrão de Troly em Casa Branca.

O tenente-coronel Vicente Ferreira de Syllos Pereira foi victima de um gatuno que, na hora da partida de ss.mm. imperiaes para a estação, se apoderou do seu troly, dizendo ao cocheiro que o tomava com a autorização do sr. tenente-coronel. Incontinente o sr. tenente-coronel despachou gente após o gatuno; mas já era tarde, porquanto o esperto gatuno, tomando no troly, como passageiros, ao que nos consta, os drs. Babtista Pereira, Moreira de Barros, José Oscar e outros, que não se pôde conhecer, sahiu a toda brida, e, largando os passageiros, abandonou o troly na praça da estação − ficando, por esta forma, o sr. tenente-coronel Vicente e sua exma. família impossibilitados de acompanhar suas majestades à estação. È de nosso dever apresentar os signaes que se pôde colher do espertíssimo gatuno: branco, magro, alto, sem barba, e trajava sobrecasaca preta, collete preto, calça de casemira de cor, chapéo preto e botinas a Mellié. È de se suppor que o espertíssimo gatuno tivesse uma boa gorgeta para ...(ilegível).
Casa Branca, 16/10/78. O inimigo dos gatunos.

Vicente recebeu o título de Barão de Casa Branca pelo Decreto Imperial de 7 de maio de 1887. Não chegou a receber em vida a honraria, pois falecera no dia seguinte, dia 8 de maio de 1887, aos setenta e oito anos de idade, sendo sepultado na matriz da cidade.

Casa Branca teve três outros barões do café: o Barão de Monte Santo, Gabriel Garcia de Figueiredo; o Barão do Rio Pardo, coronel e comendador Antônio José Correia; e o Barão de Mogi Guaçu, José Caetano de Lima.
Continua.

Referência.
Paschoal, A.D. História de uma família. Genealogia à luz da história. Tomo II. Séculos XIX e XX. 403 p. Piracicaba, 2010.

Aspectos Históricos da Agricultura Paulista: Parte 16. Nova ordem econômica: progresso e inovações tecnológicas graças à agricultura.

Adilson D. Paschoal
Professor Sênior da Esalq-USP

Século XIX: Segunda metade. Brasil na era das máquinas e das grandes invenções. Telégrafo, caminhos de ferro e telefone. A cotonicultura progride com a Guerra da Secessão. Com a borracha e o cacau, o polo econômico volta-se para o Norte e o Nordeste. Barões da borracha e suas extravagâncias. Malgrado o progresso e o café, São Paulo mantem-se atrasada


A Guerra do Paraguai (1864-1870) trouxe sérias consequências econômicas e sociais para o Brasil, obrigando à tomada de empréstimos externos para manter a balança comercial. A guerra serviu para mostrar ao mundo que o país era, além de Cuba, o único onde ainda existia escravidão. Seu exército era composto por ex-escravos e outros indivíduos de classe miserável, que se alistavam procurando, nas batalhas, sua ascensão social. Os oficiais, geralmente oriundos de classe mais qualificada, sentiram-se fortalecidos pelas sucessivas vitórias, passando a defender o fim do império e a atuação mais efetiva do exército como única instituição capaz de salvar o país da desordem, das fraudes eleitorais, da anarquia política e do caos econômico.

Mas os problemas sócio-econômicos já vinham de longa data. A desastrosa situação da economia brasileira, herdada por Pedro II de seu avô e de seu pai, foi durante toda a primeira metade do século XIX baseada na agricultura de exportação (acúcar, algodão e tabaco), que sofria séria concorrência internacional. A indústria, com exceção de algumas poucas (metalúrgica e têxtil, principalmente), tinha sérias restrições impostas pela Inglaterra.

O alto custo dos escravos, após ter-se proibido o tráfico, teve como consequência a redução da produção agrícola. Desde a Independência, as importações suplantavam as exportações. O próprio reconhecimento da liberdade havia inflacionado o país, pois, para reconhecê-la, Portugal exigiu o pagamento de dois milhões de libras esterlinas, em 1825, e a Inglaterra condicionou-a à renovação dos tratados de 1810, além de vantagens alfandegárias. A moeda desvalorizada, a emissão de dinheiro sem lastro metálico, e o deficit permanente na balança comercial obrigavam à tomada de empréstimos no exterior.

Várias medidas postas em prática no Segundo Império beneficiam o país. Em 1844, novas tarifas algandegárias encarecem as mercadorias importadas, beneficiando a indústria nacional. O primeiro surto industrial ocorre em 1850, com a emissão de papel moeda e maior aplicação de capital na indústria (de fiação, tecelagem e alimentícia), principalmente por traficantes de escravos, após a extinção do tráfico negreiro.

A Revolução Industrial na Europa e nos Estados Unidos, com suas fumegantes máquinas a vapor, e os progressos com a eletricidade e o magnetismo, que permitiram aperfeiçoar o telégrafo, em 1844, por Morse, e inventar a lâmpada incandescente, em 1879, por Edison, começam a ter efeitos no Brasil.

Foi no Brasil, mais precisamente em Campinas, em 1833, que o francês Hercule Florence cria a palavra “fotografia”, para designar uma de suas descobertas, fazendo do país um dos pioneiros da arte fotográfica, pelo uso de câmara escura. Por volta de 1860, chega ao Brasil a técnica do colódio úmido (negativo feito sobre placas de vidro sensibilizadas com solução química), que melhora a qualidade do negativo, fazendo proliferar os estúdios de retratistas, principalmente alemães, nas principais cidades brasileiras. Pedro II foi grande incentivador da fotografia como arte, sendo responsável pela preservação de grande parte de nossa memória visual do século XIX. Com isso, a pintura sofre sério revés.

Os primeiros navios a vapor (paquetes), que aos poucos iam substituindo os veleiros no transporte de cargas, correspondências e passageiros da França e da Inglaterra para o Brasil, começam a chegar ao país em 1840. Além de velas, tinham rodas laterais acionadas por motores a vapor. Hélice propulsora só seria inventada mais tarde. Navios a vapor passam também a percorrer rios brasileiros, no Amazonas e no Rio Grande do Sul, graças ao Barão de Mauá.

As comunicações que antes se faziam por mensageiros a cavalo, passam a ser feitas por correios, sendo que em 1º. de agosto de 1843 são emitidos os primeiros selos postais brasileiros, denominados “olhos de boi”, nos valores 30, 60 e 90 réis. Tais selos são considerados a segunda emissão filatélica na história postal do mundo, precedida apenas por aquela do selo “Penny Black”, lançado pelo serviço postal inglês.

Em 1843, são emitidos os primeiros selos postais brasileiros, denominados “olhos de boi”, nos valores 30, 60 e 90 réis. Tais selos são considerados a segunda emissão filatélica na história postal do mundo, precedida apenas por aquela do selo “Penny Black”, lançado pelo serviço postal inglês. “Olhos de boi”.
Em 1852, é inaugurado o telégrafo no Brasil, ocasião em que se faz a primeira ligação oficial, por intermédio do novo meio de comunicação, entre o Quartel-General do Exército, no Rio de Janeiro, e a Quinta da Boa Vista, no Palácio de São Cristóvão. O primeiro cabo telégrafo entre o Rio de Janeiro e a Europa foi instado por iniciativa do Barão de Mauá.

Em 1852, é instalado o telégrafo no Brasil, ocasião em que se faz a primeira ligação oficial por intermédio do novo meio de comunicação, entre o Quartel-General do Exército, no Rio de Janeiro, e a Quinta da Boa Vista, residência oficial de D.Pedro II. O Palácio de São Cristóvão também receberia, em 1879, o primeiro telefone a operar no Brasil. Quinta da Boa Vista e Paço de São Cristovão. Litogravura-aquarela de Karl Robert Von Planitz. !836-1840.

O primeiro caminho de ferro do Brasil, ao contrário do que se pode pensar, não foi construído por ingleses, mas por um brasileiro — o Barão de Mauá. A “Imperial Companhia de Navegação a Vapor e Estrada de Ferro Petrópolis” (Estrada de Ferro Mauá) começa em 1854, ligando Porto da Estrela ao pequeno povoado de Fragoso, não muito distante de Petrópolis, onde ficava o palácio de verão do imperador, tendo extensão de 14,5 km.

Desde 1835, a Assembléia Provincial do Rio de Janeiro havia concedido privilégios, por quarenta anos, à companhia que se dispusesse a construir um caminho de ferro ligando o Rio de Janeiro às províncias de São Paulo e de Minas Gerais. No dia da inauguração da Estrada de Ferro de Petrópolis (1854), chega ao Porto da Estrela o barco que trazia D. Pedro II, nobres e ministros; após o desembarque, duas filas de pessoas se formam ao longo do trajeto por onde o imperador e a imperatriz passam, saudando a todos. Ao bispo coube a missão de batizar a “Baronesa”, a primeira locomotiva do Brasil, importada da Inglaterra. Desde então, os trilhos passam a substituir os caminhos poeirentos, e os vagões, as tropas de mulas.

A viagem pela Estrada de Ferro Petrópolis começava no cais da Prainha, no centro do Rio de Janeiro, a bordo do vapor Guarani, terminando no Porto da Estrela, no outro lado da baía da Guanabara, onde se situava a estação inicial da ferrovia. O barco atracava num píer, onde ficava à espera da composição puxada pela “Baronesa”. Ao final do trecho ferroviário, os passageiros pegavam carruagens em direção ao centro de Petrópolis. A passagem custava 1.500 réis, mas os mais pobres — assim identificados os que andassem descalços — pagavam apenas 500 réis.

Em 1856, o grande empresário Mauá inaugura a “União e Indústria”, a primeira estrada pavimentada do país, entre Petrópolis e Juiz de Fora. Entrementes, os veículos de tração animal, como as carruagens, que transitavam por estradas, não podiam competir com os trens, de modo que as rodovias só se expandiriam no século XX, com o aparecimento dos automóveis e dos caminhões.

O primeiro caminho de ferro brasileiro foi construído pelo Barão de Mauá, o primeiro grande empresário e industrial do país. A “Imperial Companhia de Navegação a Vapor e Estrada de Ferro Petrópolis” (Estrada de Ferro Mauá) começa em 1854, aberta com trabalho de escravos. Estrada de Ferro Mauá, segunda metade do século XIX. Autor desconhecido.
Outros caminhos de ferro surgiram depois, sempre sob a influência do gaúcho Irineu Evangelista de Sousa, Barão de Mauá: Companhia Estrada de Ferro D. Pedro II (depois Central do Brasil), em 1858, no Rio de Janeiro, tendo 48,2 km de extensão; Recife e São Francisco Railway, em Pernambuco, em 1858; a “São Paulo Railway Company Limited” (depois Estrada de Ferro Santos-Jundiaí), em 1867, em São Paulo, a maior delas, com 139 km. Vieram mais tarde as companhias Paulista (1868), Sorocabana e Ituana (1870) e Mogiana (1872), e outras mais, no Rio Grande do Sul, Minas e Paraná. O objetivo principal das ferrovias era o escoamento das safras, principalmente de café.

Em 1876, nos Estados Unidos, Alexander Grahan Bell inventa o telefone. Em exposição internacional, onde o inventor expunha seu invento, D. Pedro II, que visitava o local, teve papel decisivo para a aceitação da novidade tecnológica. Para demonstrar seu funcionamento, Grahan Bell estende um fio de um canto a outro de uma sala, dirige-se ao transmissor e coloca D. Pedro na outra extremidade. O silêncio é total. D. Pedro tinha o receptor no ouvido quando exclama, num repente: “Meu Deus, isto fala!” Menos de um ano depois da exposição, já estava organizada, em Boston, a primeira empresa telefônica do mundo. Pouco depois, em 1879, no Rio de Janeiro, instala-se o primeiro telefone no Brasil, especialmente construído para D. Pedro II nas oficinas da “Western and Brazilian Telegraph Company”. A instalação foi feita no Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, hoje Museu Nacional. Não tardou a surgir a Cia. Telefônica Brasileira. Em 1883, estava pronta a primeira linha interurbana, ligando o Rio de Janeiro a Petrópolis.

Na agricultura, a Guerra da Secessão americana (1861-1865) beneficia a cotonicultura brasileira. A valorização da borracha, após a descoberta do processo de vulcanização (1842) e do seu uso no revestimento de rodas de veículos (1850), e a invenção do pneumático (1890), fez dela uma das principais matérias primas das indústrias. A grande demanda de borracha fez com que os imensos seringais da Amazônia começassem a ser explorados de forma rápida e intensa, nos moldes do café no Sul do Brasil. Em 1880, a Amazônia exportava sete mil toneladas de borracha, aumentado para dezessete mil toneladas em 1887 (34.500 t entre 1907 e 1910) a um valor de 220.000 contos de réis ou 13.400.000 libras esterlinas ouro, representando vinte e oito por cento das exportações brasileiras.

A nova riqueza atrai muitos aventureiros em busca de fortuna rápida. Com técnicas primitivas, muitas árvores não resistem ao regime intenso de exploração e sucumbem. Assim, por analogia ao raciocínio dos barões do café, de que havia terras abundantes sob matas sem fim, os barões da borracha também foram levando devastação aos seringais, do Pará ao Amazonas e ao Acre.

A antiga cidade de Belém (1616), por onde se escoava a borracha, rapidamente se moderniza, com levas de imigrantes europeus (portugueses, franceses e espanhões) e asiáticos (chineses e japoneses). Palácios suntuosos são construidos e o Teatro da Paz (1878) torna-se palco de apresentações que só se viam na Europa. A cidade chega a ter 170.000 habitantes, com requintes que não se viam nas mais ricas cidade do ciclo do café, no Sul do país: iluminação elétrica, bondes elétricos, água encanada, redes de esgoto, avenidas traçadas sobre pântanos aterrados, além de imponentes edifícios e palacetes, em estilo europeu.

Do meio da selva, a esquecida Manaus (1669) ressurge com explendor inimaginável, rapidamente chegando a ter 70.000 moradores. Com o mundo voltando suas atenções para ela, a “Paris das Américas”, como passou a ser chamada, torna-se o centro da comercialização da borracha, passando os barões da borracha a financiar imponentes construções.

Era tal a extravagância trazida pelo dinheiro que se acendia charutos havana com notas de contos de réis, e se tomava banhos de champanha francês. Em 1880, era inaugurado o Mercado Municipal, com pavilhões em estilo “art nouveau”, importados da Europa; em 1896, erguia-se o Teatro Amazonas que, por duas décadas, recebe óperas, orquestras e grandes artistas internacionais, dentre os quais Enrico Caruso. Foi uma das primeiras cidades a ser urbanizada no Brasil e a primeira a possuir energia elétrica. Surgem novas praças, ruas, avenidas, pontes metálicas e um porto flutuante. Enquanto todas as grandes cidades brasileiras viviam quase de modo rural, em Manaus já existia luz elétrica, redes de água encanada e de esgoto, e bondes elétricos. Em 1902, chegava o primeiro automóvel, importado da França.

Com o sonho de enriquecer, milhares de imigrantes brasileiros instalam-se nos seringais, principalmente nordestinos, fugitivos das secas. Estrangeiros de várias nacionalidades fazem intercâmbio econômico entre Manaus, os seringais e os grandes centros industrializados da Europa e dos Estados Unidos. Na fronteira com a Bolívia, ocorre a incorporaçao do Território do Acre, que logo se povoa, chegando a ter 50.000 habitantes. Em 1912, a produção do país chegaria ao zênite: 42.000 t, mais de quarenta por cento das exportações do país, contra outros quarenta por cento do café. Entrementes, tal qual castelo de cartas, logo em seguida vem o declínio, com as plantações asiáticas de borracha.

Do meio da selva, a esquecida Manaus (1669) ressurge com explendor inimaginável, rapidamente chegando a ter 70.000 moradores. Com o mundo voltando suas atenções para ela, a “Paris das Américas”, como passou a ser chamada, torna-se o centro da comercialização da borracha, passando os barões da borracha a financiar imponentes construções. Manaus, em cartão postal do início do século XX, com bonde que ia até a Alfândega.
A velha aristocracia baiana, dos coronéis do açucar, decadente desde o ciclo do ouro de Minas Gerais e do café de São Paulo, volta a resplandecer, embora sem a esplendor do passado, graças a uma planta trazida da Amazônia para o sul da Bahia: o cacau. Com o crescente consumo de chocolate na Europa e nos Estados Unidos, tem início, em 1880, quase que simultaniamente com o ciclo da borracha, o ciclo do cacau, surgindo a figura dominadora dos coronéis do cacau. Nesse ano, as exportações eram de 1.668 t, aumentando rapidamente ao longo dos anos seguintes, chegando a 13.130 t em 1905 e 44.380 t em 1915, com o Brasil sendo o segundo maior produtor mundial. Com isso, Salvador volta a ser cidade de rápido progresso.

Enquanto Belém, Manaus, Salvador e a capital do Império, Rio de Janeiro, se modernizavam, adquirindo fisionomia europeia, com suntuosos edifícios, iluminação elétrica ou a gás, bondes elétricos ou puxados por burros, carruagens e berlindas de quatro rodas, tracionadas por juntas de cavalos, veículos esses que exigiam ruas mais largas e melhor pavimentação para se locomoverem com maior velocidade, São Paulo, a capital dos intrépidos paulistas, de cafezais sem fim, e de magníficas fazendas, de sedes monumentais, no estilo europeu, permanecia uma cidade feita de taipa, economicamente pobre e com feições predominantemente coloniais.

Nesta época, a população paulistana era de vinte e três mil moradores, muitos dos quais estudantes da Academia de Direito (Faculdade de Direito do largo de São Francisco), escravos de famílias que os acompanhavam, e fazendeiros que passaram a viver na capital da província. Além da falta de divertimento e de espaços de lazer, não havia abastecimento regular de água potável, e as ruas, além de muito escuras à noite, tinham péssimos calçamentos, feitos com pedras mal aparelhadas e irregulares. Até o final do século XIX, São Paulo não passava de “uma vila provinciana, acanhada e sonolenta.”

Queixava-se, em 1870, um presidente ao inspetor de obras: “a capital da Província não tem iluminação que preste, não tem água para satisfação dos habitantes, não tem praças ornadas, chafarizes, monumentos ou edifícios públicos.” Quanto ao transporte, as pessoas precisavam alugar tílburis (carros de aluguel de duas rodas, puxados por um cavalo) ou carros de boi, para perfazerem grandes distâncias. Pouco mais tarde, ainda no Império, trafegaram os primeiros bondes de tração animal na cidade. Eram carros pequenos, abertos, com capacidade de três bancos e nove assentos, importados dos Estados Unidos. A primeira linha (1872) ligava a Sé à Estação da Luz. A cidade só despertaria com o café.



Enquanto a capital do Império se modernizava, adquirindo fisionomia europeia, com iluminação a gás, bondes puxados por burros, São Paulo permanecia uma cidade feita de taipa, economicamente pobre e com feições predominantemente coloniais. Rio de Janeiro (acima) e São Paulo (abaixo) em fotografia de 1862. Autores não identificados.

A maior riqueza durante todo o Segunda Reinado, de Dom Pedro II, vem, entretanto, do café da província de São Paulo, que lidera as exportações brasileiras, com volumes duas vezes maior do que o segundo produto: o açucar.

Continua.

Referência.
Paschoal, A.D. História de uma família. Genealogia à luz da história. Tomo I. Séculos VIII a XIX. 430 p. Piracicaba, 2007.