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terça-feira, 27 de novembro de 2018

Aspectos Históricos da Agricultura Paulista: Parte 2. Os primeiros engenhos


Adilson D. Paschoal
Professor Sênior da ESALQ-USP

Ano de 1532. Povoadores da Primeira Vila do Novo Mundo. Fundação de São Vicente. Aprendendo técnicas agrícolas com os Índios. Os primeiros engenhos de cana-de-açúcar. O açúcar passa a ser exportado pelo porto de Enguagaçu (Santos).


Passado um ano e dois meses de viagem, duas naus da esquadra de Martin Afonso de Sousa aportam na ilha de São Vicente, no dia 22 de janeiro de 1532, local em que o capitão-mor resolve estabelecer o primeiro núcleo de colonização, por já existir aí um povoamento, não existirem índios hostis e porque seria mais fácil a defesa contra possíveis ataques bugres vindos do continente. Em 1510, o degradado português Mestre Cosme viera para São Vicente onde fundara um povoado fazendo fortuna com negócio de escravos indígenas, com troca de mercadorias entre índios e moradores, e com suprimentos e água para navios que aí aportavam em direção ao rio da Prata e ao Paraguai. Já havia nesse lugar doze casas de taipa, muitas ocas, armazém, embarcações, uma pequena torre de pedra para defesa e um porto, chamado das Naus, para embarcações de grande calado.

Naus portuguesas aportam em São Vicente, no porto das Naus, no dia 22 de janeiro de 1532, trazendo para o Brasil os primeiros colonos e mudas de cana-de-açúcar. Porto das Naus. Óleo de Benedito Calixto, Prefeitura de São Vicente.

Em Bertioga, Antão e seus amigos fidalgos a serviço do rei ajudam na construção de um forte, e, em São Vicente, iniciam a primeira vila do Brasil, cujas moradias são construídas usando-se materiais que aí abundavam: madeira, barro e sapé. Poucos dias depois do desembarque em Bertioga, temem pelas suas sortes.
Subitamente, à frente deles, trezentos a quinhentos índios armados de arco e flecha, pintados para a guerra, de negro de jenipapo e vermelho de urucum, posicionam-se em atitude ao mesmo tempo hostil e de curiosidade. Armas são sacadas no forte. O conflito parece inevitável. De repente, de dentre os silvícolas, gritos se ouvem em língua que lhes era familiar. Um homem branco então se apresenta, a passos largos, dizendo que nada temessem, pois aqueles eram índios amistosos. Mal crendo no que ouviam e viam, pois sempre acreditaram que naquelas plagas do mundo novo só existiam feras e bárbaros comedores de gente, os pioneiros deparam-se com o náufrago e judeu português João Ramalho e o sogro dele, o cacique Tibiriçá.

Os índios ─ foi-lhes dito depois ─ eram guaianazes, habitantes das planícies, menos perigosos do que os tamoios, e, da mesma forma que os carijós e os patos, não eram antropófagos. Ao contrário deles, não guerreavam em matas fechadas e não matavam seus prisioneiros, trazendo-os para suas aldeias onde os escravizavam. Disso aprenderam os portugueses quando precisaram de mão-de obra para as suas lavouras de cana e de subsistência, organizando as primeiras entradas à busca de índios. Os guaianazes viviam da caça, da pesca e de frutos da floresta; não faziam agricultura e por isso eram totalmente inadequados para as lavouras. Sem eles, porém, dificilmente os colonos teriam sobrevivido aos tupinambás. Não tinham ocas senão tocas cavadas no chão, servindo-lhes de cama
folhas cobertas por peles de animais caçados.

Fundação de São Vicente, junto à praia, onde já existia um pequeno povoamento. Óleo de Benedito Calixto, Museu
Paulista, São Paulo.


Meses se passam e a recém fundada vila de São Vicente, a primeira povoação em todo o novo mundo, cresce com as moradias de taipa, cobertas de sapé, algumas de telhas portuguesas, que os índios ajudam a construir, e as lavouras de cana-de-açúcar, que ajudam a implantar.

O trabalho no campo é árduo. Compactas matas, de árvores de grande porte, têm de ser derrubadas para o preparo da terra. Os portugueses aprendem com os índios a técnica da coivara, de derrubada seguida de queima e plantio nas cinzas.

Com as terras de sesmaria, que Pedro de Góis e José Adorno recebem, a cana-de-açúcar logo começa a produzir satisfatoriamente. Em 1532, Pedro de Góis estabelece o primeiro engenho de açúcar: o engenho Madre de Deus. Um ano depois, em 1533, José Adorno põe em operação o segundo deles, chamado Engenho São João. Ambos os engenhos foram implantados na ilha de São Vicente.

Passam a produzir açúcar, aguardente e rapadura já na primeira safra de cana, em 1533. A experiência de Antão Leme ajuda nesse mister, tendo ele também recebido terras de sesmaria, cultivadas com cana, culturas de subsistência e algum gado. Ao rei chegam as boas notícias vindas da Colônia, e, com elas, também muitos pedidos de terras.




Os primeiros engenhos de açúcar utilizavam mão de obra escrava indígena, depois substituída por mão de obra escrava africana. Ilustrações de autores desconhecidos.

Em meados de 1533, corre a notícia que Martim Afonso retornaria a Portugal. A incerteza quanto ao futuro da vila domina os colonos pioneiros, que viam partir, com as naus, as suas mais vivas esperanças. Martim reacende-lhes os ânimos, prometendo mandar outras frotas com mais engenhos e facilidades e, sobretudo, trazendo-lhes as esposas e os filhos. Antão Leme e os demais fidalgos povoadores não sabiam ainda que faziam parte da Capitania de São Vicente e que Martim Afonso era o seu donatário e governador. A notícia não havia chegado ao Brasil, informando que D. João III havia criado, em 1532, o sistema de capitanias hereditárias.

Nesse mesmo ano de 1533, graças a uma sociedade criada por Martim Afonso com o rico negociante flamengo João Veniste (Johan van Hielst), estabelece-se na capitania o terceiro engenho de açúcar, denominado do Senhor Governador, em terras férteis de Enguaguaçu (depois Santos). Três anos depois, em Enguaguaçu, o sertanista português Brás Cubas recebe a mais vasta sesmaria do litoral da capitania de São Vicente. Posteriormente, a sociedade se desfaz com a venda das instalações ao alemão Erasmo Scheter, quando passa a se chamar engenho São Jorge dos Erasmos. Tal benfeitoria seria adquirida mais tarde por Braz Esteves, fidalgo madeirense, administrador e técnico em açúcar e aguardente.

Muitos outros engenhos foram estabelecidos depois, passando a Colônia a exportar açúcar e a produzir aguardente e rapadura para consumo interno. Progredia, assim, rapidamente, a nova vila.

A ausência de Martim Afonso desestrutura completamente a vila de São Vicente. Semicivilizados portugueses e bárbaros silvícolas logo se misturam em mamelucos ainda piores e mais violentos. Escraviza-se o índio para trabalho na agricultura e nos engenhos. Entre os europeus predominam a crueldade e a desonestidade, faltando-lhes os mais elementares princípios de decência.

Logo após o retorno de Martim Afonso, São Vicente é atacada e destruída por hordas de indígenas e espanhóis comandados por Mestre Cosme, que, dessa forma, se vinga, por ter perdido tudo o que levara vinte anos para construir. Seus moradores fogem para Enguaguaçu, escapando a maioria com vida quase como que por milagre.

Em 1541, o porto de embarque de mercadorias é transferido de São Vicente para Enguaguaçu. A partir de 1543, o povoamento de Brás Cubas passa a se chamar Porto de Todos os Santos, tornando-se o segundo da Colônia. Em 1544, um terrível maremoto inunda São Vicente destruindo a casa do conselho, a igreja e o pelourinho. Perdida toda a documentação histórica, os camaristas de São Vicente passam a proteger mais os livros de atas. Desestimulados, muitos dos pioneiros mudam-se para a nova região, onde Brás Cubas constrói um hospital a que chama Santa Casa de Todos os Santos. Por ter posição mais favorável do que São Vicente, Santos dá novo alento à produção de cana, passando por aí todo o açúcar exportado, servindo também de refúgio aos vicentinos durante os ataques dos índios. Em 1545, a vila de São Vicente é transferida para local mais afastado do mar, junto ao morro de Santo Antônio.

Elevação do Porto de Todos os Santos à categoria de vila, em 1545, com leitura do foral de vila por Brás Cubas, junto ao pelourinho. Óleo sobre tela de Benedito Calixto, Museu dos Cafés do Brasil, Santos.

Por resolução da Casa do Conselho de São Vicente, dois juízes ordinários são nomeados em 1544, por voto direto, para os dois povoamentos. Para São Vicente é escolhido, pela sua autoridade, dedicação à vila que viu nascer, e pelo seu caráter íntegro, Antão Leme, que, dessa forma, torna-se o primeiro juiz da vila e, possivelmente, o primeiro do Brasil. Um ano depois, ele participa do ofício que eleva Santos à categoria de vila, por ato de Brás Cubas, nomeado o novo capitão-mor da Capitania de São Vicente.

Em 1549, Antão Leme vê, com muita esperança de finalmente se estabelecer a ordem em São Vicente e em Santos, a vinda ao Brasil do primo de Martim Afonso, Tomé de Sousa, como seu primeiro governador geral, embora sabendo que ele iria se estabelecer em local muito distante, em Salvador, na Bahia de Todos os Santos. É tal o seu entusiasmo que, finalmente, decorridos vários anos, pôde aconselhar o seu filho Pedro Leme a vir para o Brasil. Ele próprio voltara à ilha da Madeira, onde vem a falecer.

Continua.

Referência.
Paschoal, A.D. História de uma família. Genealogia à luz da história. Tomo I. Séculos
VIII a XIX. 430 p. Piracicaba, 2007.

Obs. “O Monumento Nacional Ruínas Engenho São Jorge dos Erasmos – Base Avançada de Pesquisa, Cultura e Extensão da USP – é um órgão da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo, situado na divisa entre os municípios de Santos e São Vicente, no estado de São Paulo. É a mais antiga evidência física preservada da colonização portuguesa em território brasileiro e sua data de construção remonta a 1534.”

Biblioteca Central da ESALQ recebeu o II SAPEA - Seminário de Apresentação do Projeto de Engenharia Agronômica





O evento promoveu a exposição dos trabalhos finais da disciplina sobre Projeto de Pesquisa em Engenharia Agronômica. 


De 26 a 30 de novembro de 2018, a Biblioteca Central da Esalq recebeu o II SAPEA - Seminário de Apresentação do Projeto de Engenharia Agronômica, com a exposição de painéis que apresentaram os trabalhos finais da disciplina LES 0362 - Preparação do Projeto de Pesquisa em Engenharia Agronômica.

A mostra foi coordenada pela Profa. Rosebelly Nunes Marques do Departamento de Economia, Administração e Sociologia, em parceria com a Divisão de Biblioteca, e este aberta para visitação de segunda a sexta-feira, das 07h45 às 21h.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Não haverá expediente na Divisão de Biblioteca de 15 a 20 de novembro de 2018


Em virtude dos feriados da Proclamação da República e Consciência Negra, não haverá expediente na Divisão de Biblioteca de 15 a 20 de novembro de 2018.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

ASPECTOS HISTÓRICOS DA AGRICULTURA PAULISTA. Parte 1. VIAGEM RUMO AO DESCONHECIDO.

ASPECTOS HISTÓRICOS DA AGRICULTURA PAULISTA.
Parte 1. VIAGEM RUMO AO DESCONHECIDO.

Adilson D. Paschoal
Professor Sênior da Esalq-USP

Ano de 1530. A cana-de-açúcar é levada para a Colônia. Fidalgos pioneiros e o sonho do enriquecimento rápido. Navegando em Incertezas. O “El Dorado”.

Era o dia 3 de dezembro de 1530. Os sinos de todas as igrejas de Lisboa tocam, simultaneamente, anunciando a partida de uma frota portuguesa em direção ao Brasil. Alguns dias antes de alçar velas no Tejo, em vento favorável, duas naus, um galeão e três caravelas já haviam recebido suas cargas usuais para viagens de longa duração através do Atlântico, em direção à terra recém descoberta por Cabral: centenas de tonéis de água, vinho, azeite e vinagre, centenas de quintais de biscoito, toucinho, bacalhau, arroz e queijo, e muitas fanegas de grão-de-bico e frutas secas. O comandante dessa frota, Martim Afonso de Sousa, vinha a mando do rei D. João III, iniciar a colonização do Brasil.


Certa ocasião, na Corte Imperial, aos fidalgos que vinham com Martim Afonso, foi exibido um mapa do cartógrafo oficial do Reino, Lopo Homem, datado de 1519, intitulado "Terra brasilis", impressionando-os a terra selvagem, porém promissora do Brasil, para a qual viriam a convite do capitão-mór, em 1530. “Terra Brasilis”: Atlas de Miller, Biblioteca Nacional de Paris.

Semanas antes da partida, viera do Funchal, na ilha da Madeira, a mando do capitão-mor, um galeão em cujos porões se fez transportar muitas mudas de cana-de-açúcar, sementes de várias plantas e os primeiros animais domésticos a serem criados no Brasil. Nele também transportou-se todo o mecanismo desmontado de dois engenhos de açúcar, os primeiros a serem instalados no país do pau-de-tinta. Martim Afonso definira, estrategicamente, desenvolver a colonização da nova terra através da agricultura, com base na cana-de-açúcar. Nenhum outro lugar era mais adequado a tal propósito, isto é, de obtenção de plantas e equipamentos para a produção de açúcar, do que a Madeira. Agricultores, alguns escravos negros e técnicos açucareiros experientes como moedores, caldeireiros e purgadores de açúcar, além de navegadores, padres, artífices de vários ofícios e muitos milicianos armados, integravam a tripulação, de mais de quatrocentas pessoas.

Nos camarotes da popa, reservados às pessoas mais influentes e ricas, iam embarcados vinte e sete fidalgos, especialmente convidados por Martim Afonso, com a aprovação do rei, para investirem suas fortunas na nova colônia, recebendo da coroa portuguesa, através de carta de doação de sesmarias, as terras que lhes fossem necessárias. Dentre esses fidalgos iam Antão Leme, tetraneto de Martin Lems, do condado de Flandres, Bélgica, e alguns de seus criados, vindos do Funchal, levando, como a todos a bordo, muita esperança de enriquecimento rápido. Entrementes, Antão deixava no cais do porto esposa e o filho Pedro, cujos acompanhamentos, no oceano tormentoso e pouco navegado, cheio de terríveis monstros marinhos, e nas terras desconhecidas e hostis brasileiras, eram de todo desaconselháveis. A escolha de Antão, entre os fidalgos que vinham com Martim Afonso, justificava-se não só pela sua nobreza e parentesco com o donatário da Ilha, mas pela experiência que tinha como administrador de engenhos e técnico açucareiro.



Certa ocasião, na Corte Imperial, aos fidalgos que vinham com Martim Afonso, foi exibido um mapa do cartógrafo oficial do Reino, Lopo Homem, datado de 1519, intitulado "Terra brasilis", impressionando-os a terra selvagem, porém promissora do Brasil, para a qual viriam a convite do capitão-mór, em 1530. “Terra Brasilis”: Atlas de Miller, Biblioteca Nacional de Paris.


Com idêntico propósito de implantar engenhos para o fabrico de açúcar e aguardente vinham o fidalgo judeu genovês José (Giuseppe) Adorno e quatro de seus irmãos, e o fidalgo português Pedro de Góis, depois donatário de uma capitania. Do Porto, os fidalgos portugueses João Pires, por alcunha “O Gago”, e seu filho Salvador Pires somavam-se a eles. Ainda de Portugal, de Olivença, vinha o fidalgo João do Prado, e de Lamego, o nobre fidalgo de geração e médico Antônio Rodrigues de Alvarenga, todos solteiros e muito jovens, assim como o capitão-mor, que não tinha mais do que trinta anos.
Os nobres vinham atraídos não só pelas terras, que teriam em profusão no novo continente, mas também pelas notícias, que corriam céleres em todo Portugal, das riquezas em ouro e prata do Brasil. Na viagem, comentam do bugre que, a bordo da nau de Cabral, em 1500, nos dizeres de Pero Vaz Caminha “pôs olho no collar do Capitãn, e começou a acenar com a mão para a terra e depois pera o collar, como que nos dizia que avia em terra ouro. E também viu um castiçal de prata, e assy mesmo acenava para a terra e depois para o castiçal, como a dizer que avia na terra tambem prata.” Falam de Américo Vespúcio que, em 1503, dizia haver tanto ouro que os selvagens nem sequer faziam caso dele: ...“o paiz não produz outro metal senão ouro, do qual ha grandissima abundancia.” Falam, ainda, do oficial inglês Walter Raleigh, que mencionava a cidade de Manôa, chamada “El Dorado” pelos castelhanos, cujo rei toda manhã untava seu corpo de gomas perfumadas e mandava que seus escravos, com tubos, lhe soprassem por cima densas nuvens de ouro em pó, formando um manto dourado. À noite, lavava todo aquele pó riquíssimo, lançando-o fora, para, no dia seguinte, começar tudo de novo. E onde ficava esse fabuloso reino senão no Brasil, diziam eles, procurando ocultar as dificuldades porque passavam a bordo.

A viagem transcorre com muitas adversidades. Poucos dias depois da esquadra levantar âncora, sucedem calmarias, que duram mais de uma semana. Seguem-se tempestades, com ventos fortíssimos, que escurecem o céu antecipando a noite, fazendo as naus balançarem perigosamente de um lado e de outro, iluminando o firmamento descargas elétricas apavoradoras, fazendo-os pensar que haviam chegado ao fim do mundo, onde a Terra, que poderia afinal ser mesmo plana, terminava em imenso abismo. Tenso, Antão se recorda das histórias contadas por seu pai Antônio, célebre navegador, de que, em tormentas como estas, muitos homens caiam ao mar e eram perdidos. Também, de serem frequentes que tripulantes e passageiros fossem acometidos de febres agudas, sendo sangrados várias vezes, enxaropados e purgados, recebendo alimentos frescos para a cura. O escorbuto, desconhecido na época, era a pior peste a bordo, sendo responsável pela maior parte das mortes. A absoluta falta de higiene espalhava doenças entre os passageiros e tripulantes, que chegavam a vomitar ou defecar uns sobre os outros. Ao mau odor dos excrementos fazia-se juntar o mau cheiro do cordame, do couro e do piche. Alimentos frescos ou bem conservados eram a salvação, mas só quem os podia levar salvava-se.

Ao se deparar com vários enfermos a bordo, em estado grave, Antão recorda-se do que lhe contara sua mãe Catarina, da terrível epidemia de peste negra que assolara a Europa entre 1346 e 1352, e de tantas outras de cólera, responsáveis pela morte de milhões de pessoas no século XIV, e que ainda vitimavam muita gente, quer em terra, quer a bordo de navios. Emocionada, sua mãe falava-lhe da aterrorizante peste, em que os doentes apresentavam dolorosos bubões, do tamanho de ovos, no pescoço, nas axilas ou nas virilhas, por onde escorriam pus e sangue, além de manchas escuras de hemorragias internas, que matavam em poucos dias. Era tão grande o medo do contágio, que até mesmo os pais abandonavam seus filhos à sorte. Fugiam para o campo os magistrados e os notários, recusando-se a fazer o testamento dos agonizantes; fugiam os padres, em pânico, diante da perspectiva de ouvir as confissões dos moribundos; fugiam também os médicos, e os poucos que ficavam receitavam poções a base de melaço de dez anos, picadinho de serpente, pílulas de chifre triturado de veado, mirra, açafrão, e para quem podia se dar ao luxo — ouro em pó, esmeraldas ou pérolas trituradas.
— “Ira de Deus pelos pecados do homem!”, dizia, em lamento, a sua mãe Catarina.
— “Interação desfavorável dos astros!”, contestava seu pai Antônio, com base em relato, de que tinha conhecimento, dos mais importantes médicos da Universidade de Paris.
Nas costas de Pernambuco, após dois meses de viagem em alto mar, e em outras partes, a frota de Martim Afonso enfrenta corsários franceses que contrabandeavam pau-brasil. No litoral pernambucano, na Feitoria de Itamaracá, já operava, desde 1516, um engenho de açucar, o primeiro do país.


Após dois meses de perigosa viagem em alto mar, a esquadra de Martim Afonso enfrenta corsários franceses nas costas brasileiras. Era a primeira de muitas outras batalhas que teriam pela frente, na terra que escolheram para si. Gravura do belga Théodore de Bry, no livro de viagens de Hans Staden.
Na baía de Todos os Santos, os colonizadores conhecem Diogo Álvares Correia, o “Caramuru”, e sua mulher, a índia Paraguaçu. Ouvem, atentos, à trágica história, narrada por Diogo, do naufrágio da caravela em que ia em direção à Índia, dos seus companheiros que foram trucidados e devorados pelos nativos, e da sua sobrevivência graças à astúcia e à arma de fogo e pólvora que conseguira retirar dos escombros do navio soçobrado.

No local do futuro Rio de Janeiro, param por três meses, tempo em que dois bergantins são construídos para a exploração das costas brasileiras. Bergantim era uma embarcação similar à galeota, sendo de menores dimensões, com uma coberta corrida, com oito a dez bancos para os remadores, e que podia armar uma vela. Querendo logo descobrir o fabuloso ouro do país lendário, o capitão manda quatro de seus mais corajosos marujos pela terra adentro. Dois meses depois, alguns deles retornam com notícias maravilhosas. Haviam caminhado cento e quinze léguas sertão adentro (460 km, embora a distância percorrida tivesse sido muito maior) e chegaram até os chãos do Paraguai, onde índios amistosos contaram-lhes notícias febrentas de um país longínquo, terra de incas, onde, à beira de uma lagoa, encontrariam “imensa prata e imenso ouro.” Era o lendário “El Dorado”

Prosseguindo em sua narrativa, os bravos homens de Martim Afonso contam que Aleixo Garcia, que lá ficara, havia organizado com eles uma bandeira e, contando com os índios, chegara ao Peru, onde se ingurgitara de ouro e prata, rapinados dos incas, retornando depois ao Paraguai, todos muito ricos. A Aleixo, entretanto, o destino reservara uma tragédia: havia sido morto em uma emboscada. Apesar disso, o destino fizera com que a notícia chegasse aos ouvidos dos colonizadores: “No Rio do peraguay ha muito ouro e prata”...

Na ilha de Cananéia, depois de passarem pela de São Vicente, os colonizadores param por quarenta e quatro dias, e vêem partir ao interior uma expedição de oitenta homens bem armados, entre besteiros e espingardeiros, comandados por Pedro Lobo, sob a promessa de trazerem quatrocentos índios carregados de muito ouro e prata, garantida por dois degradados portugueses: Francisco de Chaves e outro, por alcunha “Bacharel”, que aí viviam com índios e alguns espanhóis. Tratava-se da riqueza dos incas, cuja notícia havia passado de aldeia em aldeia através do imenso sertão. Pedro Lopes de Sousa, irmão do capitão-mor, deixou escrito esse episódio, com o português que se grafava naqueles idos tempos: “Quinta fª xbij dias do mes dagosto veo pedre añes piloto no bargantim e cõ elle veo fr.co de chaves e o bacharel e cinquo ou seis castelhanos. este bacharel avia xxx años q estava degradado nesta terra e o fr.co de chaves era muy grãde linguoa desta terra. pella enformaçam q della deu aa capitam .J. mandou a p° lobo com oitenta homens q fossem descobrir polla terra dentro porq ho dito fr.co de chaves se obrigava q em dez meses tornara ao dito porto cõ quatro centos escravos carregados de prata e ouro. Partiram desta ylha ao primeiro dia de setembro de mil e 1531 os quarenta besteiros e os quarenta espingardeiros.”

Continua.

Referência.
Paschoal, A.D. História de uma família. Genealogia à luz da história. Tomo I. Séculos VIII a XIX. 430 p. Piracicaba, 2007.



quarta-feira, 24 de outubro de 2018

YouAgro,a rede social do agronegócio




O aplicativo YouAgro foi desenvolvido para proporcionar um ambiente especializado, onde se encontram diversos produtores, estudantes e professores envolvidos direta e indiretamente com o agronegócio; compartilhando suas experiências, oportunidades, dúvidas e ideias.

Um grupo de profissionais envolvidos com o setor do agronegócio no Brasil, teve a iniciativa de criar e desenvolver um novo aplicativo social voltado para o setor agrícola: o YouAgro. Uma ferramenta totalmente gratuita que busca através do conceito de economia colaborativa aproximar pessoas, instituições e empresas, gerando troca de informações e oportunidades para todos. 

Lançada em dezembro de 2017, a plataforma já reúne indicadores digitais interessantes. Até o momento, são mais de 4000 usuários registrados e mais de 120 grupos criados com foco em assuntos do agronegócio, como agronomia, veterinária, zootecnia, entre outros. Dentro de cada fórum, participam desde gestores corporativos de grandes empresas, consultores, produtores, técnicos agrícolas,  estudantes e professores.

Em 2018 a startup YouAgro ingressou nos ecossistemas Agtech Valley, Startup-SP/Sebrae e da Usina de Inovação na cidade de Piracicaba, estando próxima a grande diversidade de pessoas influentes e startups do meio agro.

O YouAgro tem o objetivo de integrar todas a comunidade estimulando a participação de todos e promovendo um canal alternativo para aumentar o valor do trabalho no campo, reduzir o consumo de recursos e disponibilizar conhecimento e informações imparciais, geradas por quem vivencia o mercado dia após dia.

Saiba mais sobre YouAgro:
  • Site: youagro.com
  • Email: contato@youagro.com 
  • Facebook: facebook.com/youagrosocial/
  • Instagram: instagram.com/youagro



terça-feira, 16 de outubro de 2018

Lattes não tem mais campo para ORCiD



Informamos que o Currículo Lattes não está mais permitindo adicionar o nº ORCiD. Em breve, teremos mais informações sobre o Consórcio Brasileiro ORCiD, a partir do qual os sistemas do CNPq, Capes, RNP, CONFAP, IBICT e SciELO estarão plenamente integrados ao ORCiD. A previsão é 2019.

Agradecemos a todos (as) o apoio e a atenção.


Atenciosamente,

Elisabeth Adriana Dudziak
Divisão de Gestão de Desenvolvimento e Inovação
Departamento Técnico - SIBiUSP

Fone: +5511-3091-4195


quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Portaria dispõe sobre obrigatoriedade de citação da CAPES



PORTARIA Nº 206, DE 4 DE SETEMBRO DE 2018 

Dispõe sobre obrigatoriedade de citação da CAPES

O PRESIDENTE DA COORDENAÇÃO DE APERFEIÇOAMENTO DE PESSOAL DE NÍVEL SUPERIOR, no uso das atribuições que lhe foram conferidas pelo art. 26 do (a) Estatuto, aprovado (a) pelo Decreto nº 8977, de 30/01/2017, e

CONSIDERANDO o indicado nos Editais da CAPES, nos Termos de Compromisso de Bolsista, nos regulamentos de bolsas no exterior e de bolsas no país, no Manual de AUXPE, e no termo de adesão ao Portal de Periódicos;

CONSIDERANDO o constante dos autos do processo nº 23038.013648/2018-51, resolve:

Art. 1º Os trabalhos produzidos ou publicados, em qualquer mídia, que decorram de atividades financiadas, integral ou parcialmente, pela CAPES, deverão, obrigatoriamente, fazer referência ao apoio recebido.

Art. 2º Para fins de identificação da fonte de financiamento fica autorizada a utilização do código 001 para todos os financiamentos recebidos.

Art. 3º Deverão ser usadas as seguintes expressões, no idioma do trabalho:
"O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001
"This study was financed in part by the Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Finance Code 001"

Art. 4º Fica o pró-reitor de pós-graduação ou congênere, responsável pela divulgação e aplicação da regra dentro das Instituições de Ensino Superior que recebem apoio da CAPES.

Art. 5º A falha em obedecer esta norma implicará em mudanças eventuais nos apoios da CAPES para as instituições e pesquisadores envolvidos, a partir de 2020.

Art. 6º Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação.

ABILIO A. BAETA NEVES

Fonte: CAPES

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Introduction to ORCID for Research Administrators webinar



Reunir informações confiáveis, atualizadas e oportunas sobre pesquisadores, seus resultados de pesquisas e suas afiliações é um desafio e leva tempo para os gerentes de pesquisa. E fornecer esses dados é demorado e frustrante para os próprios pesquisadores.

Inscreva-se neste seminário on-line gratuito para saber como a ORCID - uma organização global sem fins lucrativos que fornece identificadores digitais exclusivos (ORCID iDs) para pesquisadores - pode ajudar. 

Mais de 5 milhões de pesquisadores já se inscreveram para um ID, e o ORCID está incorporado em mais de 500 sistemas, desde a aplicação do subsídio até a submissão do manuscrito e além."

Oradores: Lori Schultz (Universidade do Arizona); Laure Haak (ORCID); Jamie McKee (Altum)

Convidamos a participar do Webinar Introduction to ORCID for Research Administrators: What, Why, How? para aprender como o ORCiD pode ajudar.

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Elisabeth Adriana Dudziak
Divisão de Gestão de Desenvolvimento e Inovação
Departamento Técnico - SIBiUSP
www.bibliotecas.usp.br
atendimento@sibi.usp.br
www.facebook.com/SIBiUSP
Fone: +5511-3091-4195

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Expositor Pegue & Leve




OBJETIVO: 
Implantar a Política de Descarte Correto de Material Bibliográfico na DIBD, a partir dos critérios de avaliação, de responsabilidade do Processo Formação e Manutenção do Acervo (FMA), através do gerenciamento dos materiais bibliográficos descartados do acervo e/ou doações espontâneas recebidas, e assim contribuir com disseminação da informação, através do repasse do material às bibliotecas, instituições e/ou usuários, reduzir impactos ambientais e colaborar com programas do USP/Recicla.

EFEITO ESPERADO: 
Proceder ao descarte correto do material, disponibilizando-os às bibliotecas/instituições, aos usuários ou encaminhando para reciclagem, quando estiver danificado ou sem interesse para os usuários, atendendo aos requisitos da responsabilidade socioambiental.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

DIVISÃO DE BIBLIOTECA DA ESALQ LANÇA SÉRIE PRODUTOR RURAL SOBRE ORQUÍDEAS




No período de 03 a 17 de agosto de 2018, de segunda a sexta-feira, das 7h45 às 21h, acontece na Biblioteca Central da ESALQ uma exposição de painéis sobre os “20 Anos da Série Produtor Rural”. 

A publicação é editada e publicada pela Divisão de Biblioteca desde 1997 e tem como missão a publicação de textos acessíveis aos produtores rurais, com temas diversificados e informações práticas, utilizando linguagem simples, acessível e didática.

A abertura aconteceu na sexta-feira (03), às 16h, com o coquetel de lançamento do fascículo especial da Série Produtor Rural sobre orquídeas, coordenado pelo Prof. Dr. Paulo Roberto de Camargo e Castro, Professor do Departamento de Ciências Biológicas da USP/ESALQ. 

Nesta obra, os autores apresentam o universo maravilhoso que envolve as orquídeas de uma maneira muito especial, agradando dos iniciantes aos mais exigentes orquidófilos. A publicação apresenta curiosidades e exemplos práticos para manejo de orquídeas, com orientações sobre morfologia e genética planta, incluindo métodos de cultivo e as respectivas técnicas para controle de doenças e pragas. 

Mais informações: www.esalq.usp.br/biblioteca ou https://sites.google.com/usp.br/spr-20-anos/sobre .

Imagens: Ronaldo Caprecci