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sexta-feira, 31 de maio de 2019

Aspectos Históricos da Agricultura Paulista: Parte 24. Luiz Vicente de Souza Queiroz: Ancestralidade e formação profissional.

Adilson D. Paschoal
Professor Sênior da Esalq-USP

Séculos XIX e XX. O ensino precário de São Paulo. Com a aristocracia cafeeira moderniza-se a capital paulista. O Barão de Limeira manda o filho Luiz de Queiroz estudar na Europa. Instituições cursadas. Retorno ao Brasil e a vinda para Piracicaba. Na fazenda dos Marqueses de Valença. 


Era comum às famílias mais abastadas, enriquecidas em função do café e do açúcar, enviar para estudar na Europa os filhos varões, suprindo, dessa maneira, a quase ausência de escolas na província de São Paulo, bem como a ineficiência ou inconstância do ensino naquelas existentes. Tentativas iniciais, implantadas desde a vinda da família real portuguesa para o Brasil em 1808, falharam quase que completamente. A mais antiga instituição paulista, e de todo o Brasil, data de 1827, quando o imperador D. Pedro I criou o Curso de Ciências Jurídicas e Sociais, instalado no Convento de São Francisco, em São Paulo (atual Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, USP); simultaneamente, criou ele idêntico curso em Olinda, instalado na Basílica e Mosteiro de São Bento. Em 1834, tentou-se aprimorar a educação, ficando os ensinos primário, secundário e de formação de professores sob a responsabilidade das províncias, colégios, liceus e escolas normais sendo criados principalmente por iniciativa privada. Tal foi o que ocorreu na cidade de São Paulo com a criação do Liceu Coração de Jesus (1885, salesiano) e com a Escola Normal “Caetano de Campos” (1846), só para homens, esta de um único professor para todas as matérias, ora aberta, ora fechada, em um lugar, depois em outro. O primeiro colégio criado no Brasil foi o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, em 1837, por meio de um decreto imperial. Referente ao ensino secundário, “Pedro II” era tido como padrão para o Brasil, servindo de modelo de educação de qualidade para os colégios privados. Já o ensino superior era de atribuição exclusiva do poder central. 

Na província paulista, alguns colégios, de orientação religiosa e de caráter privativo, foram criados no século XIX: Colégio São Luis (1867, jesuítico), em Itu, transferido depois para São Paulo em 1919; Colégio Internacional (1869, presbiteriano), em Campinas; Colégio Mackenzie (1870, presbiteriano) e Deutsche Schule (1878, depois Colégio “Visconde de Porto Seguro”, de orientação germânica), ambos em São Paulo; e Colégio Piracicabano (1881, metodista), em Piracicaba. Nas primeiras décadas do século XX, alguns liceus, como o Liceu Nacional “Rio Branco”, de iniciativa particular, surgem em São Paulo para atender, principalmente, os filhos de fazendeiros e de famílias tradicionais paulistanas.

A educação considerava-se ser exclusiva dos ricos, sendo possível apenas em algumas das principais cidades do Império, e para pouquíssimos alunos; algumas escolas, e.g. as salesianas, aceitavam apenas meninos. Houve tempo em que a carência de professores obrigava a que alunos mais aplicados, indicados por seus mestres, passassem a ensinar os colegas mais atrasados, perpetuando-se o analfabetismo e o ensino de baixa qualidade. Aos escravos proibia-se o estudo em escolas, impedindo, assim, o acesso deles ao conhecimento.

A cidade de São Paulo, provinciana por centenas de anos, de numerosas chácaras de agricultura diversificada, começa a se urbanizar a partir dos anos 70 do século XIX, surgindo bairros bem planejados, por exímios engenheiros estrangeiros, graças ao advento das estradas de ferro, que, de 1867 em diante, passaram a ligar a capital paulista ao porto de Santos, ao Rio de Janeiro, ao Oeste Velho e ao Oeste Novo. Surgem, em consequência, os primeiros bairros organizados, para onde a aristocracia cafeeira, de barões, viscondes, condes e marqueses, passou a morar, em confortáveis mansões, palacetes, casarões e sobrados, construídos para abrigar suas numerosas famílias e serviçais. Nas suntuosas residências, construídas com muitos materiais importados da Europa e dos Estados Unidos, imperava o luxo e a extravagância, tornada moda a exibição, em armários abertos e em outros móveis, de pratarias, louças inglesas, cristais, até mesmo máquinas de escrever, recentemente aperfeiçoadas.

O primeiro deles foi o bairro Campos Elíseos, projetado em 1878 por empresários suíços e alemães, e onde, de 1890 a 1899, o cafeicultor e político Elias Antônio Pacheco Chaves construiu o suntuoso Palacete Elias Chaves (depois Palácio dos Campos Elíseos, sede do governo paulista) para servir de morada para si e sua família. A obra foi inspirada em castelo renascentista francês, marco inicial da transformação da arquitetura paulistana, então voltada para o estilo europeu. Pela proximidade com duas importantes estações ferroviárias, a estação da Sorocabana (hoje Júlio Prestes) e a Estação da Luz, o bairro era local de embarque e desembarque dos fazendeiros que vinham a negócio a São Paulo, transformando-se em local preferido por eles para a construção de suas luxuosas mansões, a primeira das quais foi a do Barão de Piracicaba (Antônio Paes de Barros), o primeiro a introduzir a cultura do café na província de São Paulo, em 1810.

O segundo local escolhido pela aristocracia cafeeira foi a Avenida Paulista, inaugurada em 1891, em terreno de antigas fazendas, chácaras e terras devolutas, projetada por um engenheiro agrícola uruguaio formado na Alemanha.

O projeto da avenida preconizava que seria plana, com cerca de três quilômetros de comprimento por doze metros de largura, havendo uma parte central para carruagens, cabriolés e tílburis, e duas laterais, uma para bondes puxados por burros e outra para cavaleiros. O leito carroçável era de pedregulhos brancos. Calçadas para pedestres existiam em ambos os lados. A nova avenida encheu-se rapidamente de palacetes e de belas mansões.

Morando na capital da província, sua terra natal, sem opção de escola adequada onde matricular os filhos, o Barão de Limeira decide por enviá-los à Europa. Assim foi com o menino Luiz Vicente de Souza Queiroz, nascido em São Paulo em 12 de julho de 1849, filho de Vicente de Souza Queiroz (Barão de Limeira) e de Francisca de Paula Souza e Mello, neto do português Luiz Antônio de Souza Queiroz (Brigadeiro Luiz Antônio) e de Genebra de Barros Leite, avós paternos que Luiz não conheceu por ter o avô falecido em 1819 e a avó em 1836.

O segundo local escolhido pela aristocracia cafeeira foi a Avenida Paulista, inaugurada em 1891, em terreno de antigas fazendas e terras devolutas, projetada por um engenheiro agrícola uruguaio formado na Alemanha. Avenida Paulista no dia da sua inauguração, em 1891. Aquarela de Jules Martin.


Em 1857, com a idade escolar de oito anos, Luiz de Queiroz segue para a Europa, acompanhado do irmão Francisco Vicente, pouco mais velho que ele, para iniciar estudos (Ver observação 1).

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Observação 1. Não há referência, de meu conhecimento, que mostre onde Luiz de Queiroz estudou em sua infância. O país mais provável é a França, pela grande importância que tinha na época, o francês sendo considerado língua universal, com a qual os nobres e as pessoas mais letradas no Brasil (que eram pouquíssimas), como os mestres-escolas, e ricas, como os aristocratas do ciclo do café, usavam para se comunicar e se instruir, vindo as principais obras literárias que aqui chegavam escritas nesse idioma ou para ele vertidas. Desde a criação do Colégio Pedro II (1837), o ensino do francês tornou-se obrigatório nas escolas públicas brasileiras, gradativamente substituindo o latim e o grego; franceses costumavam dar lições dessa língua em casa de pessoas ricas; a língua portuguesa não era ensinada, exceto para alfabetizar. A cidade mais provável de seus estudos, elementar e secundário, é Paris, a capital do século XIX, para onde também vinham, a estudo, pessoas que buscavam formação e aprimoramento, e, a passeio, com suas famílias, com relativa frequência, os fazendeiros paulistas mais abastados.

A instrução primária na França deixou de ser gratuita em 1850 (lei Falloux), predominando a educação religiosa. Provavelmente cursando a escola elementar (ècole élémentaire) de 1857 a 1860, o colégio (collège) de 1861 a 1864, e o liceu (licée) de 1865 a 1867, Luiz de Queiroz teria completado sua formação primária e secundária em 1867, com idade de 18 anos, estando, assim, apto para o ingresso na academia (ensino superior), pois o objetivo primordial do colégio e do liceu era o preparo do aluno para seguir carreira profissional.

Na adolescência, Luiz de Queiroz cursa a École d'agriculture de Grignon (Escola Nacional de Agricultura de Grignon), a mais próxima de Paris, de que distava cerca de 200 km, sendo ela a mais antiga da França, criada pelo rei Carlos X em 1826, com o nome de Escola Imperial de Agricultura, que funcionava no velho castelo de Grignon, edificado em 1636. Atualmente, a instituição chama-se Escola Nacional Superior de Agronomia, ligada ao Instituto das Ciências Industriais do Vivo e do Ambiente (AgroParisTech). Em Grignon, ele teria recebido o título de engenheiro agrícola, embora não haja documentação comprobatória disso (Ver observação 2).

École d'agriculture de Grignon, a mais antiga da França (1826), onde Luiz de Queiroz estudou e teria obtido o título de engenheiro agrícola. Château de Grignon, 2010. Foto de autor desconhecido (Wikipedia).
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Observação 2. Até 1892, época em que Luiz de Queiroz estava na Europa (de 1857 a 1873), havia três escolas nacionais de agricultura na França: Grignon, Montpellier e Grand-Jouan (depois Rennes). Todas emitiam diploma de engenheiro agrícola. A partir de 1960, com a reforma do ensino agrícola superior, o diploma de engenheiro agrícola foi suprimido. A Escola Nacional de Agricultura de Grignon passa a ser Escola Nacional Superior de Agronomia de Grignon, conferindo diploma de engenheiro agrônomo.

Admitindo-se que Luiz de Queiroz tivesse concluído sua formação primária em 1860 e secundária em 1867 (Ver observação 1), ele possivelmente cursou a Escola Nacional de Agricultura de Grignon de 1868 a 1869, pois era de dois anos a duração do curso de agricultura, o ensino sendo modificado em 1867, depois de haver redução do tamanho da fazenda modelo — base do ensino prático —, priorizando-se, desde então, o ensino teórico. A partir de 1872, a escola passou a ter duração de dois anos e meio (Delfour, 2000), quando também se iniciaram pesquisas e publicações de trabalhos, deixando a instituição de ser mera fazenda modelo. Para ingresso, necessário era passar-se em exame de admissão, e para concluir o curso, passar-se no exame de conclusão, quando então o estudante recebia diploma de engenheiro agrícola (que deixa de existir a partir de 1877).

Com a Guerra Franco-Prussiana, entre o Império Francês e o Reino da Prússia (Alemanha), iniciada em julho de 1870, e que se estenderia até maio de 1871, sendo a França invadida pelos prussianos, inclusive Paris, o pai de Luiz de Queiroz ordena que ele e seu irmão Francisco Vicente voltem para o Brasil (Ver observação 3).

Além de Grignon, Luiz de Queiroz deve ter cursado o Eidgenössische polytechnische Schule Zürich (Escola Politecnica Federal de Zurique), em Zurique, Suiça alemã, antiga instituição fundada em 7 de fevereiro de 1855, pela Confederação Suíça (Ver observação 4).


Eidgenössische polytechnische Schule Zürich (Escola Politecnica Federal de Zurique), em Zurique, Suiça, antiga instituição fundada 1855. Edifício Polytechnikum em 1865. Autor desconhecido (Wikipedia).

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Observação 3. A afirmativa de que Luiz de Queiroz teria voltado ao Brasil, por ordem de seu pai e pelo motivo da Guerra Franco-Prussiana de 1870, “interrompendo os estudos”, como afirma Queiroz (2003, 2007), não havendo documentos comprobatórios de que tenha concluído o curso, como afirma Marcovitch (2005) em seus dizeres: “Seu nome não foi encontrado nos arquivos dessas duas escolas (“Escola de Agricultura e Veterinária de Grignon, na França, e na de Zurique, na suíça alemã) é bastante contraditória. Cabem, aqui, as seguintes considerações. No “Álbum da Família Souza Queiroz” (Queiroz, 2007), o próprio autor afirma ter Luiz de Queiroz “retornado ao Brasil com 24 anos, em 1873”. Duas hipóteses são possíveis: uma, de que ele teria regressado ao Brasil em 1870, ano em que cursava o último ano da Escola de Grignon (dai a afirmativa “interrompendo os estudos”, e ao contrário do que postulei, de que ele possivelmente teria obtido o título de engenheiro agrícola em 1869); outra, de que ele teria regressado ao Brasil por ocasião do conflito e, com o fim deste, em 1871, retornado à Europa para concluir o curso de agricultura ou para cursar outro, em Zurique. Para um jovem rico, viagens ao Brasil, para rever os pais e os parentes, deviam ser comuns, daí, talvez, resultando confusas as afirmações emanadas dentro da própria família.

O que me parece mais provável é Luiz de Queiroz ter deixado a França durante o conflito com a Prússia (com ou sem o título de engenheiro agrícola) e mudado para um país neutro, a Suíça, só voltando definitivamente para o Brasil em 1873, após a morte do pai, ocorrida em 1872. Marcovitch (2005) diz em seu livro: “... Luiz de Queiroz foi mandado para a Europa, lá ficando por dezesseis anos seguidos”. Sua fluência em alemão, também sugere sua estada na parte alemã da Suíça.

A Escola Politécnica era inicialmente integrada por seis faculdades: arquitetura, engenharia civil, engenharia mecânica, química, silvicultura e um departamento para as áreas de matemática, ciências naturais, literatura e ciências políticas e sociais; visava formar engenheiros e cientistas. 

Com a morte de seu pai (com idade de 59 anos), em setembro de 1872, ocorrida em Baependi, MG, Luiz de Queiroz volta para o Brasil no ano seguinte, com a finalidade de tomar posse da fazenda Engenho d’Água, que lhe coube por herança, cujas terras iam de Constituição (Piracicaba) à Limeira. Tinha ele 24 anos de idade. 

A família Souza Queiroz, de grandes produtores de café, tinha em Francisco Antônio de Souza Queiroz (Barão de Souza Queiroz) e em seu irmão Vicente de Souza Queiroz (Barão de Limeira), filhos do Brigadeiro Luiz Antonio de Souza Queiroz, grandes proprietários de terras no interior paulista, em Campinas, Piracicaba, Limeira, Jaboticabal, Pirassununga, Descalvado, Mogi Mirim e Porto feliz. Na capital paulista, o Brigadeiro Luiz Antônio deixara como herança para o filho Francisco a Chácara da Consolação (extensa área que ia da Biblioteca Municipal à praça da República atuais) e para o filho Vicente, outra grande chácara, que hoje se estende da rua Riachuelo às ruas Humaitá e Santo Amaro.

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Observação 4. A literatura a que tive acesso não menciona qual escola superior Luiz de Queiroz cursou em Zurique. No “Souza Queiroz. Álbum de família” (Queiroz, 2007) lê-se: ”Na França, cursou a Escola de Agricultura e Veterinária de Grignon, e, posteriormente, a de Zurick, na Suíça alemã, mas quando a França e a Alemanha entraram em guerra, o pai determinou que ele (Luiz de Queiroz) e o irmão Francisco Vicente voltassem ao Brasil, interrompendo os estudos”. Tal afirmativa é parcialmente incorreta, pois não havia escola de agricultura em Zurique, como se entende ao se analisar a frase: “cursou a Escola de Grignon e a (aquela) de Zurick”. Além disso, Grignon tinha apenas curso de agricultura e não de agricultura e veterinária. Mesmos equívocos aparecem em Kiehl (1976) e em Marcovitch (2005).

Duas instituições tradicionais existiam em Zurique nos anos em que Luiz de Queiroz esteve na Europa (1857 a 1873): Universitas Turicensis (Universidade Turicensis) e Eidgenössische polytechnische Schule Zürich (Escola Politecnica Federal de Zurique). A Universidade Turicensis foi criada em 1833, administrada pelo Cantão de Zurique, reunindo os colégios de teologia, jurisprudência e medicina, e uma faculdade de artes, depois dividida em dois departamentos: de Artes (Filosofia, línguas e História) e de Matemática e Ciências Naturais. Em 1901, incorporou-se a ela (mantendo a autonomia) a Escola de Medicina Veterinária (criada em 1820). Em 1912, toda a estrutura acadêmica passa a ser Universidade de Zurique. A Escola Politecnica Federal de Zurique foi criada em 1855 pelo governo federal, sendo integrada por seis faculdades: arquitetura, engenharia civil, engenharai mecânica, química, silvicultura e um departamento para as áreas de matemática, ciências naturais, literatura e ciências políticas e sociais. Ponto interessante a considerar é que esta escola foi aceita como parte temporária da Universidade Turiscensis, e, quando o Edifício Politécnico da Escola Politécnica foi concluido em 1864, a Universidade Turiscensis passou a acupar a asa sul do prédio, mostrando, assim, estarem integradas. 

Não havia, pois, escola de agricultura em Zurique (apenas de medicina veterinária), o que não é novidade para um país situado nos Alpes, de agricultura sequer suficiente para a demanda do país. A inclinação de Luiz de Queiroz para a engenharia explica seus pionerismos, quer na implantação de uma tecelagem totalmente movida a energia elétrica, de origem hidráulica, como nos projetos de iluminação elétrica e de telefonia implantados em Piracicaba. Tais realidades sugerem ter ele cursado a Escola Politecnica Federal de Zurique, podendo não tê-la concluido, devido a morte do pai em 1872.

Os bairros de Campos Elíseos, Santa Cecília e Barra Funda foram criados em antigos terrenos pertencentes ao pai de Luiz de Queiroz, cuja atuação política iniciara-se no império de Dom Pedro II, tendo ele sido vereador na capital paulista, e seu irmão Francisco presidente (governador) da província de São Paulo.


Avenida Paulista em 1902, com seus palacetes. Fotografia do suíço-brasileiro Guilherme Gaensly.

O ano era 1873. Na mansão da família do Barão de Limeira, na cidade de São Paulo, Luiz de Queiroz é carinhosamente recebido pela mãe, a Baronesa de Limeira, e por seus irmãos, consternados ainda pela perda recente do pai. Dezesseis longos anos se passaram, vividos na Europa. Grande interesse havia na família, pois quem chegava trazia consigo uma formação diferente de todos os varões Souza Queiroz, advogados formados pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco ou médicos diplomados na Alemanha. O agora especialista em agricultura, retornava com o propósito de assumir as terras que lhe pertenciam. Para isso, quis saber como chegar à Constituição (Piracicaba) e onde se alojar na cidade. 

Luiz de Queiroz ouve, então, as explicações de que tinha necessidade saber. 

— O caminho é o mesmo por onde seguia o nosso pai, pois caminhos de ferro, como os da província do Rio de Janeiro, inexistem aqui em São Paulo — disse-lhe um dos irmãos. — 

Poderias ficar na fazenda de tia Ilídia — disse uma das irmãs. 

Percebendo em tempo o equívoco em que incorrera, ao querer adiantar-se à baronesa sua mãe, a quem cabia, de ora em diante, a chefia da família, acrescentou com humildade: 

— A senhora assim não acha, mamã? 

Tendo recebido a aprovação da progenitora, que com rápido gesto de cabeça indicara sua opinião favorável, prosseguiu ela: 

—Tia Ilídia é irmã de nosso defunto pai, que Deus o tenha!... A emoção embarga-lhe a voz; um lencinho de seda serve-lhe de contenção às lágrimas, que começavam a ofuscar-lhe a vista. Recompondo-se, continua ela: 

— A titia está bem velhinha agora, com 68 anos de idade, e, como sabes, ficou viúva do nosso nobre tio Estevão, que o Imperador Pedro I condecorou com o título de Marquês de Valença. Nós éramos crianças quando ele morreu.

Dias depois Luiz de Queiroz vem a Constituição e é hospedado na sede da fazenda que pertencia a seus tios, a marquesa Ilídia Mafalda de Souza Queiroz (irmã de seu pai) e Estevão Ribeiro de Resende (Marquês de Valença, falecido em 1856). Tendo mais de mil alqueires de terra, com predomínio da roxa, dos quais perto de 300 alqueires eram de exuberante mata, a fazenda se estendia por grande parte da margem esquerda do rio Piracicaba, cobrindo-a milhares de pés de café.

Certa ocasião, a Luiz de Queiroz foi apresentado, pela marquesa, o filho dela, Estevão Ribeiro de Souza Resende (futuro Barão de Resende), na época deputado provincial, homem dinâmico que tinha como objetivo fundar uma companhia de navegação nos rios Piracicaba e Tietê (o que aconteceria em 1878).

— Este é seu primo Luiz, de codinome “Lulu” — disse a marquesa, dirigindo-se ao filho. — Ele é o quinto rebento do meu irmão Vicente, falecido ano passado; chegou por estes dias, vindo da Europa, onde estudou na melhor das escolas agrícolas francesas...; vai ficar aqui na fazenda até que possa tomar posse da “Engenho d’Água”.

A conversa com o futuro dono do Engenho Central foi proveitosa, pois ambos tinham claro em seus propósitos a modernização de seus empreendimentos, mecanizando as operações para conseguir maior eficiência, sem a necessidade de muita mão de obra.

Luiz de Queiroz ia, aos poucos, conhecendo toda a família, de muitos casamentos de primos com primas, arranjados pelos pais para manter a riqueza e aumentar o poder político e o domínio social: Queiroz, Resende, Conceição, Costa Pinto.

Sede da fazenda Nazareth, concluída em 1880. Foto de autor não identificado (ref. Beatriz Elias).
Com o tempo passando, após a morte da marquesa em 1877, a fazenda em que fora hóspede passou à propriedade do piracicabano dr. João Batista da Rocha Conceição, filho de Francisco José da Conceição (Barão de Serra Negra, grande produtor de café, introdutor da cultura de algodão em Piracicaba) e irmão de Ana Cândida da Conceição (Baronesa de Resende). João Batista casara-se com Maria Nazareth da Costa Pinto Conceição, que era filha do Conselheiro Antônio da Costa Pinto e Maria Nazareth de Souza Queiroz Campeão, neta do Brigadeiro Luiz Antônio de Souza Queiroz. Em homenagem à esposa, a fazenda passa a se chamar Fazenda Nazareth, em 1880. Das múltiplas divisões havidas, muitas para fins imobiliários, dela restam 90 alqueires (Chácara Nazareth), com a antiga, belíssima e luxuosa casa sede, cuja construção foi concluída em 1880, em estilo que muito se diferenciava daquele de outras fazendas da região, construídas de taipa de mão, sem muito requinte.

Continua.

Referências.

DELFOUR, F. L’École d’agriculture de Grignon, de 1867 à 1918. Tese, 2000. 

ELIAS, B. Chácara Nazareth: uma história de poder desde o Império. Piracicaba. A Província, 2014. Ref. Memorial de Piracicaba. Almanaque 2002-03, Cecílio Elias Netto.

KIEHL, E. J. Vida e obra de Luiz de Queiroz. Esalq 75. Livro comemorativo do 75º aniversário da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, p. 21-40, 1976.

MARCONDES, N. Chácara Nazareth. Piracicaba. A Província, 2015. Ref. Na trilha do passado paulista – Piracicaba Século XIX – Fazendas, Engenhos e Usinas.

MARCOVITCH, J. Pioneiros e empreendedores. A saga do desenvolvimento no Brasil. São Paulo, Edusp, v. 2, 2005.

PASCHOAL, A.D. História de uma família. Genealogia à luz da história Piracicaba,. Tomo II. Séculos XIX e XX. 403 p. 2010.

PERECIN, M.T.G. Os passos do saber. A Escola Agrícola Prática “Luiz de Queiroz”. São Paulo. Edusp, 2004.

PILOTTO, C.M.S.F; BREMER NETO, H. (Coord.) Luiz de Queiroz. Vida e Obra. Uma percepção humanística. Piracicaba. USP-Esalq, 2019.

QUEIROZ, L. R. S. Souza Queiroz. Dicionário de família. Editora de Direito, 2003.

QUEIROZ, L. R. S.; FAGUNDES JR, C. E. U. Souza Queiroz. Álbum de família. São Paulo. Associação Barão de Souza Queiroz de Proteção à Infância e à Juventude, 2007.

SANTIAGO, S. Presença da língua e da literatura francesa no Brasil. Niterói. Universidade Federal Fluminense. Conferência. ABL, 2009.






quinta-feira, 16 de maio de 2019

Aspectos Históricos da Agricultura Paulista: Parte 23. A cana-de-açúcar faz de Piracicaba a maior produtora de açúcar da América Latina.

Adilson D. Paschoal
Professor Sênior da Esalq-USP

Séculos XIX e XX. Breve histórico de Constituição. Usina Monte Alegre e seu fundador: o Marquês de Monte Alegre. Fazenda “Nossa Senhora da Conceição”, em Jundiaí: de café a uva e vinho. Engenho Central, o primeiro a ter mão de obra assalariada. De senhor de engenho a usineiro e de escravo a colono.


A história de Constituição (Piracicaba) começa em 1º de agosto de 1767, quando o capitão-povoador Antônio Corrêa Barbosa, a mando de Morgado Mateus, capitão-general da Capitania de São Paulo, estabelece povoado à margem direita do salto do rio Piracicaba, para servir às embarcações que desciam o rio Anhembi (Tietê). A decisão do Cel. Barbosa contrariava a ordem que recebera, de que o povoado fosse criado na barra, para deter possível invasão castelhana vinda do Sul.

─ Nhô Barbosa! Mecê num vai fundá u puvuado na barra? ─ questiona, surpreso, Chico-piloto, proeiro-mor da nau capitânia, tão logo Antonio Correa Barbosa ordena levantar acampamento na barra e subir, contracorrente, o caudaloso rio Piracicaba.

─ Num carece di sê asi! — responde Barbosa. — A guerra c’os castelhano num si vence num lugá di sezão maleitosa cumo aqui, mais cum canoage de qualidade cumo as que si faiz das madera da parage junto ao barranco do sarto de Priscicaba...

Barbosa estava cheio de verdade. A temida invasão castelhana nunca ocorreu. E assim, na margem direita do rio, nasce Piracicaba.

A primeira atividade econômica do povoado, que serviu às viagens monçoneiras, foi a construção de barcos de altíssima qualidade, feitos de troncos gigantescos, que vicejavam nas margens do famoso salto, sendo que alguns batelões chegaram a ter metro e meio de boca por dezesseis de comprimento. Em 1774, a povoação constitui-se em freguesia, com população de duzentos e trinta almas, desmembrando-se de Itu. Em 1784, a freguesia é transferida para a margem esquerda do rio, logo abaixo do salto, onde era mais viável a sua expansão. Por não dispor de cemitério, e repetindo o que fazia na margem direita, o povo continuava a enterrar seus mortos na margem do rio, fato que causava reclamações, pois as valas rasas exalavam mau cheiro e protestos. Em 29 de novembro de 1821, ocorre a elevação à vila, sob o nome de Vila Nova da Constituição, em homenagem à Constituição Portuguesa, promulgada nesse ano.

Constituição era lugar agradável de se viver, e com certo conforto. Assim é que em 13 de abril de 1829 João Batista de Castro constrói o Hotel Central, na Praça da Matriz. A partir de 1836, a vila começa a se expandir com a agricultura, tornando-se importante centro abastecedor, com predomínio de pequenas propriedades, que além de café produziam arroz, feijão, milho, algodão e fumo; criava-se gado também. Tinha 10.291 habitantes e se orgulhava de ser, em toda a província, a vila com o maior número de pessoas que sabiam ler e escrever: 395 de seus moradores (3,8%). Em 1899, essa taxa chegaria a 50%.

Em 29 de novembro de 1821, ocorre a elevação à vila, sob o nome de Vila Nova da Constituição, em homenagem à Constituição Portuguesa, promulgada nesse ano. A partir de 1836, a vila começa a se expandir com a agricultura, tornando-se importante centro abastecedor. Festa do Divino Espírito Santo, Piracicaba, 1800, onde se destacam o rio Piracicaba e a ponte de madeira. Tela de Benedito Calixto.
Em grande escala produzia-se cana e café, culturas responsáveis pela vinda, em 1877, de um ramal ferroviário construído pela Cia. Ituana de Estrada de Ferro, permitindo conexão entre o transporte fluvial e o ferroviário. A Estação de Constituição é inaugurada com dois dias de festas, em que todas as fachadas dos prédios públicos e particulares são iluminadas com lampiões de querosene, lamparinas e velas, e fogueiras são acesas nas praças centrais. O prédio era simples armazém de cargas, com pequeno cômodo para o embarque e desembarque de passageiros. A cidade, que progredia a olhos vistos, tem, nesse ano, seu nome alterado de Constituição para Piracicaba, por petição do vereador Prudente de Moraes (depois presidente da república). O rio já tinha esse nome desde muito tempo, devido seu magnífico salto, onde “o peixe para.” Terra de dois barões, o Barão de Serra Negra, piracicabano, fazendeiro de café, e o Barão de Resende, natural do Rio de Janeiro, fazendeiro e industrial de cana-de-açúcar, Piracicaba vai aos poucos se convertendo em pólo econômico e cultural.

A Cia. Ituana de Estrada de Ferro constrói nova estação em 1885, à margem direita do córrego Itapeva. Dois anos depois, um jornal da cidade festeja o fato de a Ituana mandar construir, junto do novo prédio, “um gabinetezinho onde empregados e passageiros podiam se recolher por momentos para um serviço íntimo, sem a necessidade de procurar uma moita próxima.” Iluminava a estação uma lanterna miserável, que fornecia luz de uma banda só, dando ao ambiente aspecto fúnebre e apavorante. De certa feita, em janeiro de 1888, uma escolta policial, que conduzia no trem escravos capturados, é atacada por populares que resolveram soltar os cativos. Na confusão que se forma, aproveitam os detidos para fugir, correndo incólumes pelos trilhos.

Cana-de-açúcar foi a primeira cultura agrícola economicamente explorada na freguesia de Piracicaba. Até 1799, havia nove engenhos na região. Nicolau Pereira de Campos Vergueiro (Senador Vergueiro) adquire enorme sesmaria, de nome Morro Azul, nas margens do rio Piracicaba e nela implanta o Engenho do Limoeiro em 1807. Em sociedade com o Brigadeiro Luiz Antônio o senador incorpora ao seu patrimônio as fazendas Taquaral e Monte Alegre, esta adquirida do padre Manoel Joaquim do Amaral Gurgel, dono de extensas terras na região. Com a morte do brigadeiro, em 1819, a sociedade Vergueiro & Sousa é desfeita, e com o casamento da viúva dele, Genebra de Barros Leite, com José da Costa Carvalho (Marquês de Monte Alegre), as terras do Monte Alegre, Taquaral e outras mais passam ao domínio do marquês, que com elas e com outras que adquire originam o Engenho Monte Alegre. Outros engenhos do marquês, como Limoeiro e Monte Olimpio, também passaram a produzir açúcar e aguardente.

Fazenda Monte Alegre (1850), óleo sobre tela de Henrique Manzo, Museu Paulista, USP.

Em 1819, Monte Alegre foi avaliada em 10:822$160 (dez contos, oitocentos e vinte e dois mil cento e sessenta réis), ou aproximadamente 15 kg de ouro de 22 quilates (1:000$000 = 1,4 kg de ouro), tendo 24 escravos, engenho, casa de purgar, senzalas, monjolo, olaria para telhas, alambique, três caldeiras, duas rocas, dois novilhos e dois bois. A produção de açúcar nos engenhos em 1822 era de 1.000 arrobas de açúcar branco e 550 arrobas de açúcar redondo (de segunda classe); aguardente, milho, feijão e arroz também eram produzidos. Tempos depois, em 1887, a produção atingia entre 8.000 e 10.000 arrobas de açúcar. O empreendedorismo, a riqueza e o poder político permitiram a José da Costa Carvalho receber os títulos de Barão de Monte Alegre (1841), de Visconde de Monte Alegre (1843) e de Marquês de Monte Alegre (1854); faleceria logo depois, em 1864.

Em 1889, uma sociedade se forma e o Engenho Monte Alegre é remodelado; tinha área de 2.228 hectares, sendo 500 ha plantados com cana, 622 ha prontos para o plantio e 856 ha de mato. Em 1910, o engenho é comprado pelo italiano Pedro Morganti (Comendador) em sociedade com José Pugliese, que o modernizam e o incorporam à Companhia União dos Refinadores, do Açúcar União, por eles criada. Dezenas de casas de colonos são construídas; uma escola, de bela arquitetura, é criada em 1927 em prédio da usina, para atender os filhos dos colonos, e uma magnífica capela é erigida em um outeiro.

A cana-de-açúcar era a vocação de Piracicaba; mas nem todos que nela viviam pensavam dessa maneira. De família abastada, de produtores de açúcar, nasce em Constituição, no ano 1822, Francisco José da Conceição. Fazendeiro de café e de algodão na cidade, dono de várias fazendas no interior da província de São Paulo, introduz o arado em suas propriedades e novos equipamentos para o beneficiamento de café. Em 1850, adquire a fazenda “Nossa Senhora da Conceição” em Jundiaí, produtora de cana-de-açúcar desde 1810, que passa a produzir café em grande escala, em seus três mil alqueires de terra, plantados com 350.000 pés de café, tendo 108 escravos negros. Após ter recebido o Imperador Dom Pedro II e a Imperatriz Thereza Christina, Francisco José da Conceição recebe, em 1871, o título de Barão de Serra Negra. Uma das filhas do barão casara-se com o futuro Barão de Resende, unindo, assim, suas fortunas e poderes políticos.

Em 1880, chegam os primeiros imigrantes italianos para trabalhar com café na fazenda, convivendo, assim, com escravos africanos, que seriam libertados oito anos depois. A região montanhosa de Jundiaí tinha clima favorável à viticultura, o que levou os italianos a produzirem uva e a fabricarem vinho na propriedade. Com a crise do café na Bolsa de Nova York em 1929, a produção de café na fazenda é substituída pela de uva e de vinhos, tornando-a, em pouco tempo, uma das maiores produtoras em todo o Estado de São Paulo. Superada a crise, a fazenda volta à produção de café e de outros produtos.

Se algum extraterrestre sobrevoasse Constituição (já que os aeroplanos só seriam inventados no inicio do século XX) o que ele viria seria um “mar de cana”. Culta e empreendedora, a vila (depois cidade) não se contaminara tanto pela febre do café. Assim, nas primeiras décadas do século XIX havia 51 engenhos, todos na margem esquerda do rio, e apenas 21 fazendas onde o café era produzido em pequena escala. Em 1836, o número de engenhos passara para 78, superado em número apenas por Campinas (83) e por Itu (93); Constituição estava entre as vilas que mais produziam açúcar para exportação na província paulista (cerca de um quinto da produção).

Tinham terras em Piracicaba alguns dos homens mais ricos e influentes da província de São Paulo, dentre os quais: José da Costa Carvalho (Marquês de Monte Alegre), abastado senhor de engenho; Francisco José da Conceição (Barão de Serra Negra), produtor de café em Jundiaí; Nicolau Pereira de Campos Vergueiro (Senador Vergueiro), senhor de engenho e cafeicultor; Luiz Antônio de Sousa Queiroz (Brigadeiro Luiz Antônio), que tinha 16 engenhos, sendo um dos homens mais rico do Brasil, e seus filhos Vicente de Sousa Queiroz (Barão de Limeira) e Luiz Antônio de Sousa Barros (Comendador), este senhor de engenho e produtor de café.

Com a morte do Brigadeiro Luis Antônio em 1819, uma vastidão de terra foi por ele deixada em Piracicaba, motivo da vinda de seus descendentes para esta cidade, inclusive seu neto Luis Vicente de Sousa Queiroz, o criador da Esalq. A mulher que deixara viúva, Genebra de Barros Leite, casa-se, em segunda núpcia, com José da Costa Carvalho, Marquês de Monte Alegre, sem deixar descendência. Uma das filhas do Brigadeiro Luis Antônio, Ilidia Mafalda de Sousa Queiroz, casou-se com Estevão Ribeiro de Resende (Marquês de Valença), de quem nasceu Estevão Ribeiro de Sousa Rezende (Barão de Resende) de quem tratarei em seguida.

Iniciava-se o ano de 1881 quando uma representação, assinada por vários munícipes, é lida na Câmara de Vereadores de Piracicaba. O texto trazia uma ideia revolucionária para a época: a de mecanizar a produção de açúcar, diminuindo a necessidade de mão de obra, que deveria ser não mais de escravos e, sim, de imigrantes assalariados. A ideia alicerçava-se na Lei Geral do Brasil No. 2687, de 11/1875, que autorizava o governo a garantir juros de 7% ao ano, até o capital de 30 contos de réis, às companhias que implantassem engenhos centrais para fabricação de açúcar, empregando aparelhos e processos modernos, com mão de obra livre, assalariada. Os engenhos centrais representavam a revolução industrial do açúcar e do álcool no Brasil, modernizando também o transporte de cargas, substituindo a tração animal por trens movidos a vapor, e a mão de obra escrava por imigrantes vindos principalmente da Itália.

Em 1881, surge o Engenho Central, o primeiro a usar tecnologia moderna e a empregar mão de obra assalariada no município, logo se tornando o maior engenho de açúcar do Brasil. A cidade passa a substituir o trabalho escravo pelo dos imigrantes assalariados, recebendo grandes contingentes de portugueses, italianos, sírio-libaneses e franceses. Engenho Central. Foto de 1900. Acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba.

Aprovada a representação, coube ao advogado Dr. Estevão Ribeiro de Sousa Rezende, nascido no Rio de Janeiro em 1840, filho do Marquês de Valença, radicado que estava na cidade, onde foi vereador por vários mandatos, a criação do Engenho Central. Para isso, o empresário cedera terreno da sua fazenda “São Pedro”, situada na margem direita do rio Piracicaba, e entrara com capital de 400 contos de réis.

Com equipamentos importados da França, o engenheiro mecânico francês André Patureaux ficou encarregado das obras. Em 1882, decidiu-se pela construção de uma via férrea própria do Engenho Central, margeando o rio Piracicaba, partindo da cidade no sentido do canal Torto, que era o ponto terminal dos vapores da Companhia Fluvial Paulista, fundada por Estevão Ribeiro, e que operava no transporte pelo rio desde 1873. Em outubro de 1882, o complexo e moderno mecanismo do engenho entra em operação, com o trabalho de numerosos imigrantes portugueses, italianos, sírio-libaneses e franceses.

Após ter hospedado o Imperador Dom Pedro II em 1886, Estevão Ribeiro de Sousa Rezende foi por ele agraciado com o titulo de Barão de Resende (1887). No ano seguinte abolia-se a escravatura e em 1889 tinha fim o Império brasileiro, com a Proclamação da República, quando as províncias passam a ser estados.

Aprovada a representação, coube ao advogado Dr. Estevão Ribeiro de Sousa Rezende, a criação do Engenho Central. Para isso, o empresário cedera terreno da sua fazenda “São Pedro”, situada na margem direita do rio Piracicaba, e entrara com capital de 400 contos de réis. Rio Piracicaba, com o Engenho Central à esquerda e a Casa do Povoador à direita. Tela de Joaquim Miguel Dutra. 1917.
A grandiosidade do engenho logo começa a apresentar problemas pela falta de matéria prima e de mão de obra especializada para operar o moderno maquinário importado, de difícil manutenção. Dezessete anos depois de criado, o Engenho Central é vendido para a Société de Sucrerie de Piracicaba (incorporada depois à Société de Sucreries Brésiliennes, criada em 1907), que o transforma no maior engenho do Brasil, elevando a produção anterior, que era de 40 mil sacas de açúcar (160 mil arrobas) em 1889, para 100 mil sacas (400 mil arrobas) em 1899, e três milhões de litros de álcool. Na virada do século, o engenho transformara-se na maior usina de açúcar e álcool do Brasil e Piracicaba a maior produtora de açúcar da América Latina, com suas duas grandes usinas Engenho Central e Monte Alegre.

De 1881 a 1890, o açúcar representava apenas 6,1% das exportações brasileiras, sendo, assim, a maior parte consumida internamente. “Assucar não se faz na fábrica, como se pensa; assucar se faz na lavoura e extrahe-se e crystaliza-se na fabrica”, dizia um relatório da época.

O antigo sistema rural gerado pela cana-de-açúcar começa a mudar com a industrialização de São Paulo. Os obsoletos engenhos de açúcar e aguardente cedem lugar para os engenhos centrais, de açúcar e álcool, que, pelos problemas apresentados, começam a desaparecer na primeira década do século XX, cedendo lugar para as usinas de açúcar e álcool. Diferentemente do engenho, o processo de fabricação do açúcar na usina tinha maior rendimento, usava moendas extratoras de grande capacidade, evaporava o caldo a vácuo e obtinha açúcar com menos impurezas.

Em 1882, decidiu-se pela construção de uma via férrea própria do Engenho Central, margeando o rio Piracicaba, partindo da cidade no sentido do canal Torto, que era o ponto terminal dos vapores da Companhia Fluvial Paulista, fundada por Estevão Ribeiro, e que operava no transporte pelo rio desde 1873. Engenho Central, onde se pode ver a linha férrea. Acervo do IHGP.
Mas as mudanças iam muito além da tecnológica. As usinas passam a integrar atividades agrícolas e industriais, empregam mão de obra assalariada, de imigrantes, e compram a produção de colonos, agora chamados fornecedores de cana. A figura dominante do senhor de engenho passa a ser feita pelo usineiro, empreendedor, urbanista e de grande influência política, social e econômica. O colono do Engenho Central, assim como das outras usinas da Société Sucrérie Bresiliénne, planta a cana, roça o mato, colhe, transporta e entrega o produto nos vagões da estrada de ferro, recebendo pagamento em função da cotação do açúcar na cidade de São Paulo. Porém, tinham de pagar aluguel pelo terreno da usina que ocupavam, cujo preço variava de 30$000 a 80$000 por alqueire (uma tonelada de cana era vendida por 8$000). Com a crise do café nos últimos anos do século XIX e inicio do XX, as usinas passam a atrair grande número de imigrantes, principalmente italianos. A presença deles em Piracicaba datava de 1877, quando, pelo censo, constatou-se haver 1.660 imigrantes vindos da Itália, ocasião em que fundaram a Societá Italiana di Mutuo Soccorso, de ajuda ao imigrante recém chegado.

As construções antigas do Engenho Central começam a ser substituídas por outras maiores e mais funcionais, de alvenaria aparente, na segunda década do século XX, assim permanecendo até hoje. Foi desativado em 1974, sendo reconhecido como patrimônio histórico.

Rio Piracicaba em 1917, com vista do Engenho Central, na margem direita, e a Casa do Povoador, na margem esquerda. Aquarela de Joaquim Miguel Dutra.

Continua

Referências. 

MARCONDES, N. (edição Tais Romanelli). Na trilha do passado paulista – Piracicaba Século XIX – Fazendas, Engenhos e Usinas Engenho – Usina Monte Alegre

ELIAS NETTO, C. Monte Alegre: glória, queda e renascimento. Memorial de Piracicaba - Almanaque 2002-03.

PASCHOAL, A.D. História de uma família. Genealogia à luz da história. Tomo II. Séculos XIX e XX. 403 p. Piracicaba, 2010.

PREFEITURA MUNICIPAL DE PIRACICABA. O Engenho Central na história do Brasil e da cidade de Piracicaba. Secr. Mun. Com. & Mark. s/d.

Aspectos Históricos da Agricultura Paulista: Parte 22. O café e o desmatamento em São Paulo.

Adilson D. Paschoal
Professor Sênior da Esalq-USP

Séculos XIX e XX. Erros e acerto dos cafeicultores. Desmatamento e a marcha para o Oeste. Correlação entre produção de café e o desmatamento. Como se fazia a derrubada das matas nas encostas dos morros. Ferrovias e o eucalipto salvador. 


A história do café é uma história de muitos erros e poucos acertos. Erros pela forma como a exploração foi feita, em escala gigantesca, monocultural e monovarietal, as lavouras sendo implantadas nas encostas íngremes de morros, sem nenhum cuidado com a conservação do solo, o que obrigou ao deslocamento contínuo do cultivo sertão adentro, o machado e o fogo pondo fim às matas, secando mananciais, deixando atrás de si áreas degradadas, imprestáveis senão para pastos pouco produtivos. Propriedades rurais, vilas e cidades cujas economias giravam em torno do café acabaram em ruínas, mortas, sem esperanças, malgrado o labor, o suor e o sangue de povos escravizados ou semiescravizados, pela imposição de uma aristocracia poderosa, que acabou arruinada pela própria ambição, fausto e má gerência dos bens. Do povo vinha, como alerta, o ditado: “Pai rico, filho nobre, neto pobre”. Não fosse, entretanto, pelos pioneiros, desbravadores do sertão hostil, fazendeiros intrépidos, de coragem e determinação, para quem o desafio era meta de vida, a província paulista não teria sido rica e próspera como acabou sendo, e isto devido ao café, sendo este seu único acerto histórico. 

Exemplo marcante é o do vale do Paraíba fluminense, berço da cafeicultura intensiva no Brasil. O cultivo do café em grande escala nessa região iniciou-se com a vinda da família real portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808, ocasião em que muitas sesmarias foram distribuídas para colonos recém chegados da metrópole, ou já estabelecidos no vale, com o compromisso de iniciar lavouras com café. O plantio nas encostas dos morros, sem o cuidado de pelo menos manter no cume a vegetação nativa, como manta protetora do solo, permitindo infiltração maior de água da chuva, única técnica que, por força do acaso, mostrara ser eficiente, em pouco tempo tornou as plantações improdutivas, as terras sendo abandonadas e outras desmatadas, repetindo-se o processo até o último quinhão de terra disponível. Idêntico problema ocorreu em Minas Gerais. 

A terra era o recurso natural de que mais se dispunha, por isso os erros se repetiam. Assim foi que do vale do Paraíba fluminense a cafeicultura espalha-se pelo vale do Paraíba paulista: mesmos morros, mesma técnica, mesmo sucesso de curtíssimo tempo. Em 1830, o café era a principal cultura do vale do Paraíba, caminhando continuadamente em direção à capital São Paulo. Em 1854, a exportação de café atinge cifra considerável, com produção de 3,5 milhões de arrobas (51,4 t), o que representou o desmatamento de 510.000 hectares, máxime nas regiões de Bananal e de Areias, de grandes cafezais, quase na divisa com o Rio de Janeiro. 

Enquanto a cafeicultura declinava no Rio de Janeiro em Minas Gerais e no vale do Paraiba paulista, como rápida passagem da riqueza do café, deixando atrás ruinas de velhas mansões senhoriais, desaparecendo as plantações enriquecedoras, a produção se mantinha no Oeste Novo de São Paulo graças às terras abundantes, clima favorável e solos férteis. Dessa região, a marcha em busca de novas fronteiras seguia a oeste, nas divisas com o Paraná e com Mato Grosso. A safra de café de 1886 atinge 10,3 milhões de arrobas (151,4 t) com área desmatada de 2.800.000 hectares e taxa de desmatamento de 72.000 hectares por ano, sucumbindo ao café a magnífica Floresta Latifoliada Tropical e o Cerradão.


O plantio nas encostas dos morros, sem o cuidado de pelo menos manter no cume a vegetação nativa, 
como manta protetora do solo, permitindo infiltração maior da água da chuva, em pouco tempo tornou as plantações improdutivas, as terras sendo abandonadas e outras desmatadas, repetindo-se o processo até o último quinhão de terra disponível. Fazenda Santa Cruz, fins do século XIX. Fotografia de autor desconhecido.

A alta produção obriga o governo a aumentar os estoque de café, para estabilizar o preço. Ao longo do tempo, novas técnicas foram introduzidas: a do arado de aiveca, de tração animal, e do despolpador, o qual simplificou o descascamento dos grãos. De 1890 a 1900, as plantações de São Paulo duplicam, passando de 220 milhões de pés para 520 milhões (chegaria a um bilhão em 1930). A safra de 1901, de oito milhões de sacas, crescera cinco vezes em apenas cinco anos, o que teve, como consequência, a perda de 150.000 hectares de florestas. A partir de 1902, o governo paulista passa a cobrar imposto sobre as novas plantações, porém é somente a saturação do mercado consumidor que consegue reduzir o ritmo de crescimento. Em 1907, o estado havia perdido perto de seis milhões de hectares, ou seja, quase a metade do que havia primitivamente. A região mais desmatada era a da Mogiana, seguida da Paulista, da Araraquarense e da Alta Sorocabana.

O crescimento da economia mundial, no período pós-guerra I, cria nova oportunidade para novos plantios. Assim, entre 1918 e 1924 cerca de 121 milhões de pés de café são plantados e a cobertura florestal nativa cai para 44,8% em 1920. Em 1927, a produção atinge 104 milhões de sacas.

São Paulo, que primitivamente tinha 82% de seu território coberto por matas, ia rapidamente perdendo essa riqueza, pouco entendida na época, substituída pelo café. No período áureo, por volta de 1886, já estava reduzida a 70%. Sessenta e seis anos depois, em 1952, restariam apenas 18% (hoje não passa de 3%).






São Paulo, que primitivamente tinha 82% de seu território coberto por matas, ia rapidamente perdendo essa riqueza, pouco entendida na época, substituída pelo café. No período áureo, por volta de 1886, já estava reduzida a 70%, caindo para 44,8% em 1920, 18,2% em 1952 e 13,7% em 1962. Hoje não passa de 3%. Segundo Victor, Cavalli, Guillaumon e Serra Filho,2005.

A derrubada das matas seguia o mesmo procedimento usado para o plantio da cana-de-açúcar nos tempos coloniais. Começava de madrugada. Munidos de foices, escravos negros adentravam a mata, cortavam cipós e arbustos do subbosque, abrindo caminho para os machadeiros que, com seus instrumentos afiados, cortavam parcialmente o tronco, movendo depois morro acima, para iniciar idêntico procedimento em outra árvore próxima. Assim, em cascata, sucumbiam as árvores quando aquela mais acima das outras era derrubada, derrubando, na queda, as demais. As madeiras mais nobres, úteis na fazenda, eram retiradas e as outras enleiradas e queimadas. O fogo descontrolado destruía não apenas a área derrubada, mas outras mais, de cinco a dez vezes maiores.

Um bom exemplo é o da floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. Desmatada para o plantio de café, em pouco tempo deixou a cidade do Rio sem água potável, devido à seca dos mananciais. Em 1856, por intervenção da Secretaria dos Negócios da Agricultura, iniciou-se a desapropriação das áreas de nascentes para serem reflorestadas, culminando, em 1861, com a determinação do imperador Dom Pedro II para que a área fosse replantada e conservada.

Porém, não foram apenas as derrubadas das matas para o plantio de café que levaram à destruição da cobertura vegetal. Os fazendeiros abriam grandes ferrovias e muitos ramais chamados “cata-café”, para poderem escoar a produção. Como dormentes, moirões e postes usavam madeiras nobres, perobeiras por exemplo, o que exigia grande devastação para retirá-las. As locomotivas usavam muita lenha também, o que consumia matas. Somente em 1904 a Companhia Paulista de Estradas de Ferro começaria a utilizar lenha de eucalipto, de seu horto de Jundiaí.


Não foram apenas as derrubadas de matas para o plantio do café que levaram a redução rápida da cobertura vegetal do Estado de São Paulo. Os fazendeiros abriam grandes ferrovias e muitos ramais chamados “cata-café”, para poderem escoar a produção. As locomotivas a vapor usavam muita lenha, que consumia as matas. Nesta foto da Mogiana, aparecem grandes pilhas de lenha para o abastecimento das caldeiras das locomotivas. Foto da Companhia Mogiana (possivelmente Campinas).

A substituição da lenha de matas nativas, quase extintas no ciclo do café, por lenha de eucalipto, um recurso natural renovável, deu-se graças a Edmundo Navarro de Andrada, regente agrícola (agrônomo) formado pela Escola Nacional de Agricultura de Coimbra, Portugal, em 1903. Navarro havia sido contratado pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro para desenvolver projetos de criação de hortos florestais ao longo de sua malha ferroviária. O objetivo era criar infraestrutura onde fosse possível avaliar as melhores essências para o reflorestamento das áreas desmatadas, obter dormentes para assentar trilhos e fornecer lenha e carvão para as locomotivas a vapor. Dezoito hortos foram criados, ficando a sede no horto de Rio Claro, tendo área de 2.230 hectares. Das noventa e cinco espécies silvícolas avaliadas, uma única foi escolhida: o eucalipto australiano.

Navarro não foi, entretanto, o primeiro a introduzir o eucalipto no Brasil. Exemplares já existiam no Jardim Botânico do Rio de Janeiro (1825), em Amparo, SP (1861-1863) e no Rio Grande do Sul (1868), sendo este o estado onde primeiro se plantou, com certa regularidade, a essência florestal, cabendo a iniciativa ao político gaúcho Joaquim Francisco de Assis Brasil. Navarro foi quem mais contribuiu para o estudo do eucalipto e de seu emprego silvicultural.


Dezoito hortos foram criados, ficando a sede no horto de Rio Claro, tendo área de 2.230 hectares. Das noventa e cinco espécies silvícolas avaliadas, uma única foi escolhida: o eucalipto australiano. Edifício do Horto Florestal de Rio Claro. Foto de autor não identificado.
Continua

Referências.

MARCONDES, S. O impacto da cultura do café no meio ambiente do Brasil, do século XVIII
ao XXI. Ecodebate, 2015

PASCHOAL, A.D. História de uma família. Genealogia à luz da história. Tomo II. Séculos XIX e XX. 403 p. Piracicaba, 2010.

VICTOR, M.A.M, CAVALLI, A.C., GUILLAUMON, J. R., SERRA FILHO, R. Cem Anos de Devastação Revisitada 30 anos depois. Ministério do Meio Ambiente Secretaria de Biodiversidade e Florestas Diretoria do Programa Nacional de Conservação da Biodiversidade. Brasília, 2005.


sexta-feira, 3 de maio de 2019

Aspectos Históricos da Agricultura Paulista: Parte 21. A cultura do café possibilita a vinda de japoneses para São Paulo.

Adilson D. Paschoal
Professor Sênior da Esalq-USP

Século XX. O porquê da imigração oriental. A modernização da agricultura japonesa obriga à emigração. A difícil adaptação dos pioneiros à lavoura de café. Lavoura de parceria. Sucesso dos empreendimentos. Êxodo rural do pós-guerra. 


As emigrações subsidiadas pelos governos italiano e espanhol, para o trabalho de seus compatriotas nas fazendas de café paulistas, foram proibidas em 1902 na Itália e em 1910 na Espanha. Apesar destas restrições, a vinda de imigrantes continuou, porém em número insuficiente para a demanda crescente da cafeicultura. A solução vem com trabalhadores japoneses, requisitados desde então. O decidido gerou muita discordância, pois um dos objetivos do governo, desde o Brasil Império, era a europeização do país e o branqueamento do povo. Mas da mão de obra barata, para o trabalho nas fazendas de café em São Paulo e no norte do Paraná, dependia o sucesso econômico da cafeicultura, o grande motor da economia brasileira desde meados do século XIX. Por sua vez, o Japão, que se modernizava e se abria para o comércio exterior, precisava resolver sério problema social, gerado pela elevada taxa demográfica. A solução era incentivar a emigração. 

A situação do agricultor japonês era precária desde longa data. Produzia-se o suficiente para a demanda local, sem formar estoques para as épocas ruins. A falta de terras agriculturáveis e a quebra de safras levavam à fomes generalizadas. Urgia modernizar. Mas nem tudo saiu como se esperava. A mecanização da agricultura teve como consequência, séria e inevitável, o desemprego de milhares de camponeses; os que permaneceram produzindo endividaram-se de tal forma a perderem suas terras, por não conseguirem pagar os elevados impostos, cobrados em dinheiro e não mais em produtos agrícolas. A miséria generaliza e a fome desespera. Tem início o êxodo rural para as cidades, que se saturam e se enchem de desempregados miseráveis. A política emigratória desponta-se como necessária para resolver o problema social e permitir a modernidade. 

Acordos diplomáticos e comerciais entre o Brasil e o Japão existiam desde 1880; a imigração não europeia era proibida. Em 1890, o presidente Deodoro da Fonseca e o ministro da agricultura Francisco Glicério assinam um decreto determinando que a entrada de imigrantes da África e da Ásia seria permitida apenas com autorização do Congresso Nacional. Havia o preconceito de serem os asiáticos raças inferiores, que comprometeriam a política nacional de purificação de seu povo. O “perigo amarelo”, como se dizia, era séria ameaça às nações americanas, devido ao expansionismo militar nipônico, que buscava novas terras para colonizar. Tal raciocínio ganha vulto depois que o Japão invade a China, derrotando-a em 1895, e a Rússia, em 1905. Costumes exóticos e religião não cristã eram outros obstáculos. 

A abertura às imigrações japonesa e chinesa só foi autorizada em 1892. Em 1907, o governo brasileiro edita a Lei da Imigração e Colonização, autorizando os estados definirem a forma mais adequada de receber e instalar os imigrantes. Em acordo firmado entre o governo japonês e o secretário da Agricultura de São Paulo, o médico piracicabano Carlos Botelho, ficou definida a vinda de três mil imigrantes japoneses, num período de três anos. Com isso, no dia 28 de abril de 1908, o navio Kasato Maru ruma para o Brasil, trazendo a bordo 781 imigrantes para trabalho nas lavouras de café. Cinquenta e dois dias se passam até o desembarque no porto de Santos. Ainda no Japão, eles haviam passado por exame médico e receberam noções básicas de português.

Em acordo firmado entre o governo japonês e o secretário da Agricultura de São Paulo, o médico piracicabano Carlos Botelho, ficou definida a vinda de três mil imigrantes japoneses, num período de três anos. Desembarque se imigrantes japoneses no porto de Santos (1937 ou 1938): um dos últimos havidos. Foto de autor desconhecido. Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil.

De Santos, depois de passarem pela alfândega, eles seguem de trem até São Paulo pela São Paulo Railway, sendo alojados na Hospedaria dos Imigrantes. Os 781 japoneses recém-chegados são então distribuídos em seis fazendas de café no oeste paulista. O empreendimento não dá bons resultados, pois a maioria deles não era agricultor; a lavoura cafeeira demandava também muito esforço físico. Poucos meses depois, muitos já haviam desistido; em 1909, apenas 191 continuavam nas fazendas paulistas. Contribuíra também para o fracasso a difícil adaptação aos novos padrões, costumes e clima, tão diferentes daqueles a que estavam acostumados. Repetindo o que já ocorrera com outros migrantes, a maioria dos que para cá vinham intencionava enriquecer rapidamente e retornar ao país do Sol Nascente. Isolados no meio rural, mantendo suas tradições milenares, muitos sequer aprenderam o idioma português.

Em mensagem ao Congresso do Estado de São Paulo, em 1909, o presidente do Estado, Manuel Joaquim de Albuquerque, assim se manifestou: “A imigração japonesa parece não produzir os resultados esperados. Os 781 primeiros imigrantes, introduzidos na vigência do contracto de 6 de Novembro de 1907, deram entrada na Hospedaria da Capital em junho do anno indo; mas, na maioria indivíduos solteiros e pouco habituados á lavoura, esquivaram-se a certos serviços agrícolas, que abandonaram aos poucos. Somente ficaram nas fazendas algumas familias constituidas por verdadeiros agricultores, que trabalham muito a contendo dos fazendeiros em cujas propriedades se localizaram”.



De Santos, depois de passarem pela alfândega, eles seguem de trem até São Paulo pela São Paulo Railway, sendo alojados na Hospedaria dos Imigrantes. Trem transportando imigrantes japoneses em 1935. Foto de autor desconhecido. Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil.
Mesmo assim, as imigrações continuam. Em 1910, novecentos e seis novos trabalhadores chegam a Santos, sendo distribuídos por dezessete fazendas, onde permanecem por tempo maior, cumprindo os contratos assinados, que exigiam permanência mínima de cinco anos. 

O sistema em que vinham trabalhar era o da lavoura de parceria, existente desde as primeiras migrações europeias, porém com algumas características mais favoráveis ao agricultor. O imigrante assinava contrato com o fazendeiro, em que era obrigado a desmatar certa área de terreno, limpá-lo, plantar as mudas de café, fazer os tratos culturais e colher, devolvendo a área depois de sete anos, quando a segunda safra estaria para colher. O lucro da primeira safra era seu, bem como aquele de outras culturas que plantasse além do café. 

Trabalhando com afinco, muitas famílias conseguiram economizar o suficiente para adquirirem terras próprias, permanecendo assim no país. Os primeiros lotes de terras foram comprados em 1911, no interior do estado de São Paulo, dentro do projeto de colonização Monções, criado pelo governo federal. O empreendimento dera certo porque os contratos exigiam a vinda de famílias inteiras, pais e filhos pequenos, ou então casais recém constituídos, o que nem sempre ocorria com as migrações europeias. Por meio de um contrato de colonização, firmado em 1912, entre uma companhia japonesa e o governo paulista, novas famílias são assentadas em Iguape, vindas principalmente de fazendas em que os contratos foram cumpridos.


O empreendimento dera certo porque os contratos exigiam a vinda de famílias inteiras, pais e filhos pequenos, ou então casais recém constituídos, o que nem sempre ocorria com as migrações europeias. Família japonesa trabalhando em cafezal paulista. Foto de autor desconhecido. Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil. 

Com o fim da contratação de imigrantes pelo governo de São Paulo em 1914, constatou-se haver dez mil japoneses no Brasil; até 1915, quase 15.000 novos imigrantes chegaram ao país, atraídos pela abertura de novas comunidades rurais, não apenas no noroeste de São Paulo, mas também no norte do Paraná. Entre 1917 e 1940 vieram 164 mil japoneses, com a intenção de permanecer no país, concentrando-se principalmente no Estado de São Paulo. Na década de 30, a população japonesa no Brasil já era a mais numerosa fora do Japão. Além do café, vinham para trabalhar com algodão, batata, morango, arroz e chá. 

Os anos que antecederam e seguiram à II Guerra Mundial foram anos difíceis para os imigrantes japoneses, alemães e italianos, principalmente os dois primeiros, que formavam comunidades fechadas. Bens foram confiscados e muitos cidadãos foram perseguidos e expulsos do país. As imigrações foram proibidas. O período pós-guerra é caracterizado por forte êxodo rural japonês para as cidades, principalmente para a capital São Paulo, que, assim, passa a ter a maior população de japoneses fora do Japão. No ambiente urbano, eles passaram a trabalhar em atividades relacionadas com a agricultura, produzindo e comercializando produtos de hortas, pomares e granjas. O legado dos japoneses e dos nipo-brasileiros para a agricultura foi notável e só seria reconhecido mais tarde.


O sistema em que vinham trabalhar era o da lavoura de parceria. O imigrante assinava contrato com o fazendeiro, em que era obrigado a desmatar certa área de terreno, limpá-lo, plantar as mudas de café, fazer os tratos culturais e colher. Japoneses derrubando mata virgem. Plantação de batatas. Fotos de autores desconhecidos. Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil.

Continua.

Referências.
Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo. História da imigração japonesa no Brasil. 2008.
Wikipédia, a enciclopédia livre. Migração japonesa no Brasil. s/d.