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segunda-feira, 17 de agosto de 2020

O PRIMATA NU: I. PERDA DOS PELOS

Autor: Adilson Dias Paschoal | Professor Titular Sênior da USP/ESALQ 

E-mail: adpascho@usp.br


Dedico este artigo, em memória, ao colega e amigo Prof. Dr. Humberto de Campos, recentemente falecido, que foi diretor da Esalq e da EEP, e prefeito de Piracicaba, com quem compartilhei experiências em estatística não paramétrica, mais adequada a estudos populacionais de insetos, ácaros e outros animais que se alimentam de plantas, por sabermos serem eles dispostos de forma agregada e não ao acaso como se pressupõe em estatística paramétrica. Requiecat in pace.

Homo sapiens: mamífero primata hominídeo. Esta é a classificação zoológica resumida do ser humano atual. Atual porque outras espécies de Homo existiram anteriormente, como ancestrais nossos: Homo habilis e Homo erectus, extintos milhares de anos atrás. Alguns paleontólogos afirmam ter havido subespécies humanas, que também se extinguiram, talvez por exclusão competitiva, de forma que apenas uma delas sobreviveu, a do Homo sapiens sapiens: o homem moderno.

Próximas de nossa espécie estão outras, atuais, também de primatas hominídeos, dos gêneros Pan (chipanzés, com duas espécies), Gorilla (gorilas, com duas espécies) e Pongo (orangotangos, com três espécies), todas elas, e a nossa, originárias de um ancestral comum, que viveu na parte ocidental da África há cerca de 14 milhões de anos. Humanos, chipanzés, gorilas e orangotangos têm, em comum, características como cérebro bem desenvolvido e complexo; narinas próximas umas das outras, voltadas para a frente e para baixo; ausência de cauda; mesma formula dental, com 32 dentes; machos maiores e mais fortes; onívoros, predominantemente vegetarianos; único filhote por gestação, com cuida da prole por longo período; sociabilidade e comportamento social complexos, assim como são também as expressões faciais e a vocalização. Análises do DNA de chipanzés mostraram terem eles de 96% a 98% de genes idênticos aos do homem, sendo o mais inteligente dos símios antropomorfos. Dados mais recentes apontam serem esses valores menores, de 70%, considerando-se também as partes genéticas não correspondentes entre ambas as espécies.

Uma diferença anatômica marcante entre as espécies de hominídeos, afora aquela mais notória da postura bípede humana, é a quase total ausência de pelos desenvolvidos nos seres humanos, o que contrasta visivelmente com os peludos macacos e quase todos os mamíferos terrestres. Por que razão o homem tornou-se um primata nu é o que tratarei em seguida.

Pelos têm por função principal manter a temperatura do corpo constante (termorregulação), função semelhante à das penas das aves, que também são homeotermas. Outras importantes funções são proteger a pele do sol e das radiações ultravioletas e camuflar o corpo do animal para abate, no caso de predador (carnívoro), ou para defesa, no caso de presa (herbívoro).

A perda dos pelos deve ter ocorrido, progressivamente, pouco mais de dois milhões de anos atrás, período em que a África era habitada pelo Homo habilis (2,2 milhões a 780 mil anos), espécie que teve por ancestral o Astralopithecus (4,2 milhões a 1,4 milhão de anos) e por descendente evolutivo o Homo erectus (1,8 milhão a 100-200 mil anos), que originou o Homo sapiens neanderthalensis (400 mil anos, extinto há 28 mil anos), surgido na Eurásia, e o Homo sapiens sapiens (300 mil a 200 mil anos), surgido na África (Ver figura). Os poucos pelos que restaram não foram eliminados pela evolução por serem importantes. Assim, o cabelo funciona como isolante térmico, protegendo a cabeça dos raios solares; as pestanas impedem que sujeiras e o suor da testa escorram para os olhos; os cílios protegem os olhos de bactérias, insetos e poeira; os pelos auriculares e nasais impedem a entrada de poeira, bactérias e insetos no ouvido e no nariz; nas axilas, os pelos evitam o atrito da movimentação dos braços e que o suor escorra; pelos pubianos atuam como almofada, regulador térmico e protetor do canal vaginal da ação bacteriana.

Termorregulação é a principal função dos pelos do corpo, como já disse. Na savana africana, berço da humanidade, animais de grande porte apresentam poucos pelos desenvolvidos em relação a animais de menor porte. A razão é que nos animais grandes a relação superfície / volume do corpo é menor, o que permite conservar o calor sem que para isso se precise de pelagem densa. Explico isso (a proposição é minha) através da matemática, mas especificamente da geometria. Suponha que um cubo represente parte do corpo de um animal, uma das faces sendo a superfície externa (pele), por onde se recebe e se dissipa o calor, e o volume o corpo interno. Se a aresta é 1 cm a superfície será 1 cm² (1x1), o volume 1 cm³ (1x1x1) e a relação superfície / volume 1:1 = 1; aumentando a aresta para 2 cm, a superfície será 4 cm² (2x2), o volume 8 cm³ (2x2x2) e a relação superfície / volume 4:8 = ½, metade, portanto, da anterior: maior volume, menor superfície. Animais grandes da Savana africana, como búfalos, gnus, rinocerontes e elefantes, têm poucos pelos desenvolvidos, pelagem escura e glândulas sudoríparas em maior quantidade; zebras e girafas, igualmente grandes e com poucos pelos desenvolvidos, parecem ter a pele selecionada para camuflagem, fator de seleção mais importante por serem desprovidas de estruturas de defesa, como os chifres dos bovídeos, daí os padrões de cores e listras típicas. De médio porte, leões, hienas e cães selvagens têm o corpo coberto por pelos densos.

Dentro desse padrão da natureza, o homem, que tem corpo médio, deveria ser coberto de pelos desenvolvidos, como seus parentes macacos. Por que então os perdeu? Primeiro porque ao contrário dos símios antropomorfos, que vivem no ambiente de pouca luz, úmido e frio da floresta tropical, o homem evoluiu no ambiente ensolarado, seco e quente da Savana. De seu ancestral mais antigo, arborícola, adquiriu características notáveis como mãos preênseis e visão frontal e colorida; de outro, mais recente, adquiriu a postura bípede, mais adequada para o deslocamento em campo aberto e a visão da presa e dos predadores por cima da vegetação alta das gramíneas. A caça em grupo exigia mais coordenação e vocalização, o que tornou maior seu cérebro em milhares de anos de evoluções biológica e cultural. Cérebro maior antepôs algo inusitado entre os animais, mesmo entre os primatas mais evoluídos: a dificuldade de dar à luz. Toda mulher que é mãe sabe do que estou falando.

A vida em sociedade parece também ter atuado na redução dos pelos, os homens preferindo as mulheres menos peludas, menos parecidas com eles próprios, já que maior quantidade de pelos pudesse significar maior força, virilidade, dominância e atração sexual (assim como o leão e sua juba), gerando elas crianças com menos pelos desenvolvidos, tanto meninas como meninos, selecionados assim por seleção natural e evolução. Associado aos pelos das axilas, certas glândulas produziam odores sexuais, que desapareceram com a evolução. Outro fator na redução dos pelos do corpo humano parece ter sido a menor incidência de doenças causadas pelos incômodos piolhos, pulgas e carrapatos, abundantes nas pelagens mais densas e nos ambientes fechados das cavernas e abrigos rústicos, que obrigavam, como nos macacos, ao comportamento da catação desses artrópodes, principalmente nos machos dominantes, feitas por fêmeas e por indivíduos dominados.

A perda dos pelos teve consequências trágicas para o ser humano, como mostrarei em próximo artigo.

Com base principalmente nos crânios fossilizados, paleontólogos e outros profissionais conseguiram a restituição de como evoluiu a espécie humana em milhões de anos, com progressivo aumento do cérebro e diminuição do maxilar. Da esquerda para a direita: Astralopithecus sp., Homo habilis, Homo erectus e Homo sapiens. Fonte: Science Photo Library.

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