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quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

A Divisão de Biblioteca apoia a Campanha Viver o Natal 2018!




Como é a Campanha?
Funcionários, docentes e alunos voluntários do Campus "Luiz de Queiroz" estão empenhados em promover esta grande ação social que pretende arrecadar 600 "kits" de Natal para crianças, jovens e adultos de atendidos por instituições e projetos filantrópicos de nossa cidade.

Como será esta doação?
* Exemplo de "kit" para crianças:
01 panetone, 01 caixa de bombom, 01 brinquedo novo, 01 kit de higiene pessoal (shampoo, condicionador, escova e creme dental);
* Exemplo de "kit" para adultos:
01 panetone, 01 caixa de bombom, balas, bolachas, 01 lata de fruta em calda (figo, abacaxi, pêssego).

Quais instituições serão atendidas?
- Obra de Maria - Morador de Rua;
- Cooperativa do Reciclador Solidário;
- Centro de Apoio aos Portadores do Vírus HIV/AIDS (CAPHIV);
- Associação de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual de Piracicaba (AVISTAR);
- Centro de Apoio à Criança com Câncer (CACC);
- Centro de Doenças Infecto Contagiosas (CEDIC);
- Funcionários terceirizados da Limpadora e Vigias do Campus.

Quando e onde posso doar?
As doações serão recebidas até o dia 11/12/2018 (terça-feira).
Pontos de coleta: Serviço Social/DVATCOM ou Biblioteca Central (balcão de empréstimo).
Pequenas atitudes podem fazer grande diferença na sociedade!
Por isto queremos fazer a nossa parte começando pela comunidade que nos rodeia.
E, desde já, agradecemos o seu gesto de amor ao próximo.
Participe!

Maiores informações:
E-mail: social.lq@usp.br
Site: http://www.pusplq.usp.br
Fone: (19) 3429-4161

Texto: Ligiana Damiano

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Horário de atendimento da Divisão de Biblioteca nas férias




De 10 de dezembro de 2018 a 15 de fevereiro de 2019, o horário de atendimento na Divisão de Biblioteca será:
  • Biblioteca Central: segunda a sexta-feira, das 7h45 às 18h;
  • Biblioteca Setorial do LES: segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 14h às 18h.

Destaca-se que permanecerão fechadas de 24 a 31 de dezembro de 2018 em virtude do recesso de final de ano.

Informações:
  • Biblioteca Central: biblioteca.esalq@usp.br / (19) 3429.4311 ramal 200;
  • Biblioteca Setorial do LES: biblioteca.les@usp.br / (19) 3429.4467 / 3429.4444 ramal 8727.

Resultados da Quinzena do Perdão 2018




De 05/11 a 14/11/2018, os usuários inscritos nas Bibliotecas da ESALQ (Central e LES) puderam trocar sua suspensão por doação de leite.

O objetivo foi proporcionar vantagens ao usuário para regularizar sua situação com a biblioteca, reforçando a importância do cumprimento do regulamento e o alerta aos compromissos assumidos, utilizando as doações como caráter educativo.

Foram recuperados 32 materiais, contando com a participação de 20 pessoas que trocaram sua suspensão ou participaram voluntariamente, por aprovar a proposta.

O resultado foi a arrecadação de 103 litros de leite integral, doados dia 29/11/18 para duas instituições: CACC - Centro de Apoio a Criança com Câncer e CAPHIV -  Centro de Apoio aos Portadores do Vírus HIV/AIDS e Hepatites Virais.


Aspectos Históricos da Agricultura Paulista. Parte 4: O ciclo do ouro faz desenvolver a agricultura para abastecimento interno


Adilson D. Paschoal
Professor Sênior da Esalq-USP

Século XVII. Vilas de São Paulo e de Parnaíba. Caminho Geral do Sertão e a ocupação do Vale do Paraíba. Com as Minas Gerais, chegam os negros da África. A fome em Minas, onde uma galinha vale seu peso em ouro. O açúcar das Antilhas Holandesas gera crise econômica no Brasil Colônia.


A bem da verdade há que se dizer que, pelo seu isolamento, a vila de São Paulo era paupérrima, sendo as casas não mais do que choupanas cobertas de palha, com exceção das casas dos mais nobres, das igrejas e dos órgãos administrativos. A agricultura era de sobrevivência. Afora os poucos detentores de títulos de nobreza, a maioria de sua gente era inculta, de homens do campo, mercadores de recursos limitados, artífices e aventureiros de toda a casta, seduzidos pelas possibilidades com que lhes acenava o continente novo. Muitos eram descendentes de condenados, deportados de diferentes povos da Europa, e de mulheres indígenas. Era tal a carência de mulheres brancas, que o padre Manoel da Nóbrega, certa ocasião chegou a afirmar em carta que “os paulistas aceitariam até as mulheres erradas de Portugal.”

Nas entradas e bandeiras, a vila de São Paulo encontra sua principal fonte de renda: a mão de obra escrava. Para isso, porém, tinha-se que enfrentar a vastidão dos campos e matas, as sombrias florestas emaranhadas de cipós e espinhos, os morros escarpados, os pântanos e rios caudalosos, a ferocidade das onças, o veneno mortal das cobras, as picadas de insetos, as febres, e as flechas silenciosas e mortais do homem cor de bronze, camuflado e oculto na imensidão e no silêncio das matas. Na volta, depois de muito tempo ausentes, não era incomum aos bandeirantes encontrarem suas esposas casadas com outros homens, que os tinham por mortos.

Apesar de os paulistas terem percorrido grande parte da imensidão do Brasil, estendendo as fronteiras muito além do que estipulava o Tratado de Tordesilhas, nenhuma vila ou povoamento surgiu no sertão por iniciativa dos bandeirantes indigenistas. Elas só começam a aparecer durante o ciclo do ouro, primeiro como simples paragens, com ranchos e pastarias para animais, convertidas em povoamentos, elevados a vilas e cidades. A necessidade de novas terras férteis para a agricultura e a busca de ouro e de índios fez surgir alguns povoados ao longo do rio Anhembi (Tietê): Santana de Parnaíba, Sorocaba e Itu, este local de parada e de partida de bandeirantes e monçoeiros em busca do sertão. Nele, muitas expedições fluviais (monções) eram organizadas partindo do Porto de Araritaguaba (Porto Feliz), às margens do Tietê, com destino às minas de ouro de Cuiabá.


Para os bandeirantes havia duas maneiras de penetrar o sertão inóspito: por terra, caminhando através de matas densas, ou por rios, enfrentando corredeiras e quedas d'água. Nas margens do Anhembi, povoados foram surgindo em locais de parada e de partida de bandeirantes e monçoeiros em busca do sertão. Muitas expedições fluviais foram organizadas partindo de vários portos do Tietê e, depois, do Paraíba, com destino às minas gerais. Partida da monção. Tela de Pedro Américo. Museu Paulista. Obs. Esta tela foi seguramente destruída pelo incêndio de setembro de 2018.

A economia da vila de Santana de Parnaíba era de subsistência. Pela sua posição favorável, torna-se importante ponto de partida das bandeiras. No século XVII, a vila se desenvolve pelo emprego da mão de obra indígena, por ser um núcleo exportador de índios para as demais capitanias, e pela chegada de famílias importantes; também era uma das principais áreas de mineração da capitania. As terras, tão abundantes na época, geralmente eram recebidas de sesmarias, sendo depois divididas e doadas para parentes e amigos, que as desmatavam e construíam suas fazendas e habitações, atraindo novos moradores. As culturas mais plantadas eram trigo, milho, algodão, feijão branco, cana-de-açúcar, uva, marmelo e legumes. Os instrumentos agrícolas da época eram foices, enxadas, machados, facões, cunhas, escopros e serras.


Os produtos da lavoura eram permutados com outros de maior necessidade. O sal vinha de Santos e era para aí que se dirigiam as tropas levando açúcar, fabricado em seus engenhos, ou outro produto. As mercadorias valiam pouco. A mão de quarenta espigas de milho valia cinco réis, um alqueire de trigo, quinhentos réis, e um bom cavalo, dois mil réis. Os bandeirantes de Parnaíba traziam muitos índios para as lavouras, fazendo crescer a população. Em nada era superior a vila de São Paulo à vila de Paranaíba.

Os primeiros bandeirantes buscavam índios e metais a oeste de São Paulo, em Mato Grosso, no Sul da Colônia e no Paraguai. O Anhembi (Tietê) era, assim, o caminho natural. Com a descoberta das minas gerais, esse rio acaba sendo esquecido por certo tempo, movendo-se a rota migratória para o vale de outro curso d’água: o Paraíba, a leste da vila de São Paulo. Este era um corredor natural para as bandeiras, por ser um vale facilmente transitável, comprimido entre a serra dos Sete Pecados Mortais (serra do Mar) e a serra de Jaguamimbaba (serra da Mantiqueira).

O rio Paraíba era o caminho de penetração e ocupação das terras do vale, sendo utilizado por índios e bandeirantes. Os sertões que margeavam o rio eram cobertos por matas densas, cortadas por trilhas indígenas e por picadas abertas em seu interior, ora ao longo de serras e espigões, ora margeando gargantas de rios e ribeiros, que descem da serra da Mantiqueira e dos contrafortes da Bocaina. Os caminhos percorridos tinham sempre como referências o rio Paraíba, as gargantas e trilhas da serra da Mantiqueira, e os caminhos para o mar (Ubatuba e Parati).

Guiados por índios, os sertanistas que iam à busca do gentio da terra, e de ouro e prata, partiam de São Paulo, passavam pela região de Boigy, que deu origem ao povoado de Santa Anna das Cruzes de Mogi (Mogi das Cruzes), elevado à vila em 1611, descendo, então, de canoa, o rio Paraíba. No trajeto, entre densa floresta e muitas corredeiras, as pirogas corriam céleres passando por uma aldeia de bugres, refugiados da Borda do Campo, por eles chamada Tabaeté (“aldeia verdadeira”, em tupi). A aldeia origina um povoado em 1636, que logo se transforma na vila de São Francisco das Chagas de Taubaté (Taubaté), o primeiro núcleo de povoamento do Paraíba, ponto inicial para a ocupação de todo o vale. Em 1645, a vila dispunha de igreja matriz, casa de conselho e cadeia pública, além de moinhos de trigo e engenhos de açúcar.

Nas proximidades de Taubaté, muitos sertanistas e bandeirantes faziam pouso na paragem chamada Pindamonhangaba, nas terras do capitão João do Prado Martins, homem bom da capitania, neto de João do Prado e Filipa Vicente, que viera de São Paulo com a família e agregados, e que já estava de posse de suas terras em 1643, data de sua fundação. Mais tarde, em 1672, os irmãos Antônio Bicudo Leme e Brás Esteves Leme, netos de Antônio Bicudo e Maria de Brito, assim como de Brás Esteves e Leonor Leme, iniciam a construção de uma capela em honra a São José, fundando a povoação de São José de Pindamonhangaba, que passa a pertencer a Taubaté. Anos depois, em 1705, seria criada a Vila Real de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Pindamonhangaba, tornando-se independente de Taubaté.


De Taubaté e de Pindamonhangaba os aventureiros seguiam caminho passando por um local onde havia muitas garças brancas, por isso chamado pelos índios de Guaratinguetá. Nesse local havia, desde 1630, uma capelinha feita de pau a pique e coberta de sapé, em torno da qual se desenvolveu um povoamento, elevado a vila em 1651, a pedido do capitão Domingos Luiz Leme, bisneto de Brás Esteves e Leonor Leme, com o nome de vila de Santo Antônio de Guaratinguetá.


Vindos de Santana do Parnaíba, os pioneiros enfrentam os perigos de longa viagem, passando pela vila de São Paulo de Piratininga e o povoado de Santa Anna das Cruzes de Mogi, para chegarem a São Francisco das Chagas de Taubaté, onde tomam posse de sesmarias. O transporte é feito em lombo de burros e em pirogas indígenas, que sulcam as águas cristalinas do rio Paraíba, em cujas margens vicejam esplendorosas matas. Gravura de Johan Moritz Rugendas. Biblioteca Municipal de São Paulo.

Toda essa região pertencera à condessa de Vimieiro. Com a criação da Capitania da Conceição de Itanhaem, em 1628, com sede na vila de Itanhaem, inicia-se o povoamento do médio Paraíba, com ilustres figuras piratininganas adquirindo terras e mudando-se de São Paulo e de Santana de Parnaíba para estas novas plagas, dentre as quais muitos descendentes ─ netos e bisnetos ─ dos pioneiros Leme, Bicudo, Brito, Rocha e Prado.

Navegando a favor da correnteza, nas águas do rio Paraíba, os paulistas e outros sertanistas e aventureiros atingiam as terras de Guaypacaré, onde existia um porto, que o tempo haveria de transformar no povoado de Nossa Senhora da Piedade (Lorena). O núcleo inicial da povoação surge no final do século XVII, com as roças de Bento Rodrigues Caldeira. Antes de o rio encachoeirar-se, na paragem de Cachoeira (Cachoeira Paulista), tomavam um caminho através da mata, que vinha desde o litoral até a serra, atravessavam a garganta do Embaú, por onde se transpunha a serra de Jaguamimbaba (Mantiqueira), penetrando no “Certam dos Cataguazes” e no “Certam do Sabarabuçu”, nas futuras Minas Gerais.


Esse trajeto, chamado Caminho Geral do Sertão, foi estabelecido por várias expedições, desde o século anterior. Em primórdios do século XVII, tal caminho foi a linha de penetração mais importante do Brasil, até a abertura do “Caminho Novo”, de Garcia Rodrigues, que passa a ligar diretamente o Rio de Janeiro às Minas Gerais, reduzindo para dezessete dias o percurso, enquanto era de sessenta dias o do Caminho Geral; desde então, o Caminho Geral passa a se chamar Caminho Velho.

Corria o ano de 1699 quando chega a Taubaté um velho de setenta e um anos, maltrapilho, barbudo e de cabeça branca, portando como armas arcos e flechas.

— Quem é? perguntam os moradores, sem obterem resposta.

Curiosos acodem ao átrio da matriz, onde o forasteiro, prostrado, de joelhos fixos no chão batido, parece orar uma longa prece.

Finalmente, depois de exame minucioso, uma mulher, Maria Leite, em suspiro profundo e cheia de emoção, exclama com voz quase que embargada:

— Minha Nossa Senhora! Sagrado Coração de Jesus! É o meu marido Borba Gato!

Sim, era ele, o destemido bandeirante paulista, que retornava depois de dezessete anos de andanças pelo sertão bravio. A esposa Maria, irmã de Garcia Pais, filho de Fernão Dias Pais Leme, havia mudado para a vila de Taubaté, na esperança de reencontrar um dia o marido aventureiro. Pouco depois, embrenha-se ele de volta ao seu ambiente favorito, para descobrir a lendária serra de prata de Sabarabuçu, que, afinal, não era de prata e, sim, de ouro, de ouro de grandíssima qualidade.

Margens do Paraíba. Fins do século XVII. Vultosa quantia de mercadorias cruza o rio, em balsas, levando todo o tipo de provisões transportadas no lombo de animais, principalmente alimentos e produtos manufaturados, além de gado e de escravos conduzidos às Gerais. Corria a notícia, de boca em boca, dos tristes episódios de fomes e mortandades que assolavam a região aurífera das Minas Gerais, desde 1697, devido ao fluxo migratório intenso para o território mineiro. Essa região, praticamente despovoada antes do ciclo do ouro, tinha agora trinta mil almas.

Os mineradores sonhavam com a riqueza e poucos se dispunham a trabalhar a terra para produzir alimentos, pois um escravo empunhando a bateia dava lucro cem vezes maior ao seu senhor do que se empunhasse a enxada. Nas crises de falta de comida, comia-se de tudo: raízes, lagartos, urubus e ratos. Uma galinha valia seu peso em ouro. Muitos morreram de fome, principalmente nas vilas mais populosas do vale do rio das Velhas: Vila Rica do Ouro Preto (Ouro Preto), vila do Ribeirão do Carmo (Mariana) e arraial de Santo Antônio do Bom Retiro da Roça Grande (Sabará), obrigando a uma retirada em massa desses lugares para povoados de população menos densa. Com isso, a produção de ouro cai assustadoramente, crescendo a de alimentos, embora ainda produzidos em quantidade insuficiente, obrigando à constantes importações.

A necessidade de alimentos (mais de noventa por cento dos víveres vinham de fora da região mineradora), o crescimento das vilas e povoados, e o enriquecimento rápido dos mineradores, fizeram surgir uma elite econômica na região, passando os gêneros alimentícios e os produtos manufaturados a serem importados em grande quantidade de Portugal e de São Paulo, sendo transportados no lombo de burros, em imensas caravanas, de centenas de animais, vindas de Parati, pelo Caminho Velho, e do Rio de Janeiro, pelo Caminho Novo. A abundância de matas fornecia madeira para a construção de igrejas, edifícios e pontes.

A escassez de mercadorias e de viveres, pela alta demanda, colocava o preço nas nuvens em todo o vale do Paraíba. Assim é que, em Taubaté, gastava-se 38$000 (trinta e oito mil réis ou trinta e oito contos de réis) em equipamentos para uma viagem a Minas: escopeta, 6$000; 12 libras de pólvora, 4$800; 36 libras de chumbo, 3$600; um tacho, 3$800; um prato de estanho, 1$280; sete facas, $600; alfaia e pedra ume, $480; um papel de alfinetes, 1$600; um terçado, 1$280; três cadeados, $600; quatro machados e quatro podões, 2$000; confraria do senhor, 1$000; cinco colares, $300; uma canoa, 7$000; duas arrobas de toucinho, 1$600; uma caixeta de marmelada, $400. Pagava-se em ouro, ou, os mais nobres, em moedas de ouro e de prata. As moedas que circulavam no Brasil desde 1698 eram cunhadas na Casa da Moeda do Rio de Janeiro, sendo as de ouro nos valores de 1$000, 2$000 e 4$000 e as de prata nos valores de 20 (chamada vintém), 40, 80, 160, 320 e 640 reis (patacas). As moedas só circulavam na faixa litorânea, onde ficava a maior parte das vilas e cidades. No interior, prevalecia o escambo ou troca de mercadorias. Nas Minas Gerais, as moedas não circulavam ainda, sendo o ouro pesado servindo para os negócios. A riqueza se avaliava com base na propriedade imobiliária e o gado tinha um meio de intercambio bem aceito.

O ouro salvara a Colônia e, consequintemente, a Metrópole, pois com a expulsão dos holandeses do Nordeste em 1654, onde se concentrava a maior produção do açúcar brasileiro, houve a primeira grande crise econômica da nação que florescia. Os holandeses, responsáveis pela rápida recuperação, desde 1630, das lavouras de cana e dos engenhos de açúcar dessa região, máxime em Pernambuco e na Bahia, através de créditos concedidos aos proprietários e facilidades para a aquisição de escravos africanos, e que por décadas financiaram, transportaram, refinaram e distribuíram o açúcar produzido no Brasil, levaram consigo para as Antilhas Holandesas (América Central), mudas de cana-de-açúcar, que logo formam grandes lavouras, o açúcar aí produzido, a baixo custo, fazendo séria concorrência com o brasileiro, gerando crise que atravessaria a segunda metade do século XVII até a descoberta de ouro nas minas gerais. 

A canavicultura só voltaria a se reerguer como atividade econômica em São Paulo, na segunda metade do século XVIII.


Continua.

Referência.

Paschoal, A.D. História de uma família. Genealogia à luz da história. Tomo I. Séculos VIII a XIX. 430 p. Piracicaba, 2007.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Palestra sobre clima na Amazônia reuniu alunos e docentes da ESALQ no Pavilhão de Engenharia




Na manhã do dia 29 de novembro a Divisão de Biblioteca realizou a palestra “A agricultura depende umbilicalmente das florestas: a bomba biótica, os rios voadores e a produção agrícola brasileira", ministrada pelo Professor Antonio Donato Nobre, Pesquisador Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. 

O palestrante, que é engenheiro agrônomo formado pela Esalq em 1982, falou sobre a ecologia de florestas, biosfera-atmosfera e suas relações com as mudanças climáticas no mundo, sobretudo pelo impacto negativo na produção agrícola brasileira em virtude da baixa oferta de água para produção de alimentos. 

O evento aconteceu das 10 às 12h30 e contou com a presença de dezenas de estudantes e docentes do campus.




























quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Dicas de estudo: 5 melhores sites de pesquisa acadêmica

Dicas de estudo: 5 melhores sites de pesquisa acadêmica

Conheça algumas das mais eficientes ferramentas para buscas científicas.


Você sabe onde procurar quando precisa de material acadêmico para fazer algum trabalho? É importante conhecer os sites que disponibilizam textos, documentos, resenhas, artigos, áudios, vídeos e tudo o que você precisa para sua pesquisa acadêmica, tudo ao alcance de um clique. Trabalhos acadêmicos, como monografia e Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), devem ser fundamentados por referências teóricas de publicações científicas. 

Nesse sentido, muitos estudantes fazem pesquisas na internet e, o líder em todo o mundo é o Google. O problema é que nem sempre a informação é confiável. Pensando nisso, separamos 5 sites de pesquisas acadêmicas que apresentam conteúdos confiáveis e úteis, sem qualquer tipo de interesse econômico.

Scielo

A Scientific Electronic Library Online é uma biblioteca eletrônica que abrange uma coleção selecionada de periódicos científicos. Confira: http://www.scielo.br/?lng=pt.

Dialnet 

É uma das maiores bases de dados com materiais científicos nas línguas ibero-americanas. Conta com diversos recursos, como artigos de revistas, revisões bibliográficas, livros, teses de doutorado e muito mais. Tem como objetivo principal integrar o maior número possível de conteúdos, fornecendo acesso a textos completos. Conheça: https://dialnet.unirioja.es/.

WorldWideScience 

É um site composto por bases de dados nacionais, internacionais e portais científicos. É multilíngue e fornece em tempo real os resultados da pesquisa acadêmica e a tradução do conteúdo. Confira: https://worldwidescience.org/.

RefSeek 

É um mecanismo de busca para estudantes e pesquisadores, que tem como objetivo tornar ainformação acadêmica acessível a todos. Fornece busca em milhões de documentos, incluindo páginas da web, enciclopédias, livros, revistas e jornais. Conheça: https://www.refseek.com/.

BASE

O Bielefeld Academic Search Engine é um buscador que conta com a maior quantidade de informação do mundo, especialmente para recursos acadêmicos de acesso aberto, desenvolvido pela Biblioteca da Universidade de Bielefeld na Alemanha. São mais de 80 milhões de documentos oferecidos de mais de 4.000 fontes, com acesso a textos completos de aproximadamente 60-70% dos conteúdos indexados. Confira: https://www.base-search.net/.

Fonte: E+B Educação | Adriele Oliveira

Aspectos Históricos da Agricultura Paulista: Parte 3. Ascensão, fastígio e declínio da canavicultura paulista

Adilson D. Paschoal
Professor Sênior da Esalq-USP

Século XVI. Novos fidalgos chegam a São Vicente. Moradias e higiene nos primórdios da colonização. O açúcar vira moeda corrente. A sofisticada fazenda Sant'Anna de Acarahu. Engenho São Jorge dos Erasmos: Um dos maiores de São Vicente. Decadência da canavicultura.



Corria o ano de 1550 quando uma pequena frota, vinda do Funchal, ilha da Madeira, aporta na vila de Santos. Dentre seus passageiros destaca-se o fidalgo madeirense Pedro Leme, que vinha trazendo sua esposa Luísa Fernandes e a filha Leonor Leme, esta acompanhada de seu marido, igualmente fidalgo da casa real, Brás Esteves. Vinham, também, na pequena frota, imbuídos de fundarem um colégio, os primeiros jesuítas.


Pedro Leme assim que chega à sua nova pátria, com sua família, manda construir, na vila de São Vicente, uma casa de pedras, com cobertura de telhas vindas da Metrópole, no mesmo estilo urbano de Portugal. Assim como na maior parte da Europa medieval, a casa tinha um único cômodo, sem divisões internas, única janela e única porta, sendo o chão de terra batida. Apesar da fidalguia do proprietário, o mobiliário da casa era simples, com a indispensável arca, de múltiplas funções, uma cama mais larga do que comprida, para acomodar de duas a oito pessoas, sendo fechada com cortinas a prova de mosquitos. A rusticidade do ambiente da nova nação que surgia fez Luísa Fernandes relembrar-se das comodidades que tinha no Funchal, proporcionadas pelas bem sucedidas atividades camponesas de seus ancestrais da Madeira, que cultivavam cana-de-açúcar e várias outras culturas e criações animais. Graças ao seu casamento com o nobre da Casa Real, Pedro Leme, podia ter à mesa o pão fino de cereais ─ o principal alimento do dia a dia ─, complementado com vinhos, carnes, peixes, legumes, frutas, azeite e queijo, enquanto que a maioria pobre consumia apenas o pão escuro, feito de aveia: o chamado “pão da escassez.” Vinham-lhe à mente as palavras de sua mãe, que dizia aos filhos, como que para alertá-los: “A hierarquia das pessoas eh vista pela cor do pão que comem.”

Na rústica, mas fortificada moradia, Pedro Leme conjetura se a nova terra poderia dar-lhe, no futuro, o que tivera no passado. Da mesma forma que na Europa, as casas na Colônia não eram ainda lares na acepção exata da palavra: eram, sim, apenas dormitórios e abrigos contra as intempéries e as hostilidades do meio, que, aqui, vinham dos índios e dos corsários.

A maior parte do tempo passava-se nas lavouras e nas matas. O clima quente e a abundância de água não modificaram o hábito da higiene pessoal dos pioneiros. Era-lhes estranho e condenável que os indígenas se banhassem todos os dias nas límpidas águas dos rios e riachos, pois, desde os tempos de seus tataravós, banhar-se em excesso era tido como prejudicial à saúde; tomar mais do que dois ou três banhos por ano era desaconselhável em toda a Europa. Muitos seguiam os monges, que tomavam apenas dois banhos por ano: antes da Páscoa e antes do Natal. O alto custo do sabão e sua raridade faziam com que as roupas também fossem lavadas apenas duas ou três vezes a cada ano e, por isso, sem que se soubesse o motivo, vivia-se infestado de piolhos, pulgas, percevejos e traças.

Moradia de um cavaleiro fidalgo em São Vicente, nos primórdios da colonização. Em casas como esta, construída de pedras e coberta de telhas portuguesas, moravam os colonizadores mais ricos. Casa de Martim Afonso de Sousa. Óleo de Benedito Calixto, Pinacoteca Benedito Calixto, Santos, SP.

São Vicente já era uma vila bem estabelecida. Em 1549, criara-se a primeira escola-seminário para meninos brancos e índios, ampliada em 1553, para se tornar o segundo colégio dos Jesuítas do Brasil. Oito engenhos operavam na ilha de São Vicente e um na de Santo Amaro. O açúcar que produziam era moeda corrente, sendo que uma arroba de açúcar fino era cotada a 400 réis, enquanto que um alqueire de arroz valia apenas 50 réis. Dinheiro, assim como vinho e tudo o mais, vinha de Portugal ou da Madeira, e era de posse exclusiva dos fidalgos e do clero. Em seu caminho de volta, depois de descarregarem as mercadorias, os navios levavam o precioso açúcar.

O trabalho nos engenhos era feito por escravos indígenas, comprados por 4.000 réis cada um, valor esse que a Câmara de São Vicente taxou como máximo, quando era vendido por outro índio, que recebia, em pagamento, ferramentas, contas de vidro, búzios e outras bugigangas.

Em São Vicente, Pedro Leme logo se torna o primeiro povoador de uma das mais famosas fazendas da época: Sant'Anna de Acarahu, que compreendia uma extensa área agrícola, onde foi construído, em uma colina, um vasto solar, e, cerca de 200 m dele, uma capela. Ruínas dessa primitiva propriedade rural existiram até fins do século XIX. Nessa fazenda, bem mais tarde, em 1715, nasceria um dos principais historiadores da Capitania de São Vicente: Gaspar Teixeira de Azevedo, depois frei Gaspar da Madre de Deus, de abastada família, que havia adquirido suas terras do antigo povoador. Seu livro “Memórias para a História da Capitania de São Vicente”, foi editada em Lisboa em 1797.

A vila de São Vicente, em meados do século XVI, não tinha mais do que oitenta habitantes de origem européia, afora grande contingente de indígenas aculturados. Os engenhos de açúcar tornaram muito rica a vila, atraindo, assim como a descoberta de ouro, novos colonizadores. Convocação popular para um ato público em São Vicente. Tela de Carlos Fabra. Prefeitura Municipal de São Vicente

Em 1550, com a morte do alemão Erasmo Scheter, Brás Esteves e sua esposa Leonor Leme adquirem, em sociedade com outros fidalgos, inclusive com João do Prado, o engenho de São Jorge dos Erasmos e, com o lucro obtido com a venda de açúcar, formam rapidamente fortuna, vivendo abastados com sua família por muitos anos na vila de São Vicente.
O engenho compreendia uma área de quase 50.000 m2, com 3.200 m2 de construção, feita de pedras, areia e cal de conchas. A sede, montada com todo o conforto vindo de Portugal, era construída de blocos de granito. Além de uma capela com cemitério, havia uma construção para o trabalho e moradia dos escravos indígenas, que eram mais de setenta, e de trabalhadores livres.
O engenho propriamente dito era acionado por uma roda d'água, de eixo horizontal, que movia uma mó de pedra, de um metro de diâmetro, que fazia girar os eixos com os quais se esmagava a cana para obter o caldo. Após fervido, o melado era posto em fôrmas de pães de açúcar, onde ficava por quarenta e cinco dias, após o que os blocos de açúcar endurecidos eram retirados. A parte superior, mais clara, era a parte nobre, destinada à exportação; a inferior, de açúcar mascavo, era para consumo interno. Construído sobre uma plataforma de terreno, com a retaguarda voltada para um morro e a frente protegida por muros de arrimo de pedra, o engenho resistia aos ataques frequentes dos índios; não resistiu, entretanto, às escaramuças com piratas ingleses, que assolavam as costas brasileiras desde 1580, quando o trono português passa para a Espanha, que, na época, guerreava com a Inglaterra.

O Engenho dos Erasmos ocupava quase 50.000 m2, com 3.200 m2 de construção, feita de pedras, areia e cal de conchas. A sede, montada com todo o conforto vindo de Portugal, era de blocos de granito. Além de uma capela, com cemitério, havia uma construção para o trabalho e moradia dos trabalhadores livres e dos escravos indígenas. Ruínas do engenho São Jorge dos Erasmos. Ilustração de Benício.

O açúcar de São Vicente e de Santos, que fez muito ricas essas duas vilas, começa a declinar como atividade econômica desde o surgimento de engenhos nas capitanias de Pernambuco e da Bahia. Em 1583, havia trinta e três engenhos na Bahia e sessenta e seis em Pernambuco. De 1615 em diante a pobreza crassa em Santos e em São Vicente.

Brás Esteves e Pedro Leme percebem que não podem competir com os senhores de engenho do Nordeste, mais próximos da Metrópole e que se utilizam da mão de obra de escravos africanos, muito mais eficiente do que aquela dos seus escravos silvícolas. Não dispõem de capital, assim como todos os outros portugueses da Capitania de São Vicente, para a compra de serviçais negros. O lucro na produção de açúcar também diminui, pois os índios já não aceitam bugigangas no escambo. Portugal, sob domínio espanhol, entra em decadência. Sua marinha perde a importância. Invasões estrangeiras tornam-se frequentes. As vilas esvaziam-se com a saída de contingentes armados para o norte da Colônia, em luta contra os holandeses. Nos terrenos alagadiços do litoral surgem muitas doenças. Uma epidemia de bexiga (varíola) aniquila um terço da população local, obrigando os índios a se aprofundarem muito mais no interior do sertão, até mesmo nos “desertos” da Amazônia. Navios raramente aí aportam.

Pela insegurança e decadência de São Vicente e de Santos, Brás Esteves e Leonor Leme decidem pela venda da parte do engenho que lhes cabia e pela mudança para a vila de São Paulo de Piratininga, onde Brás se estabelece e logo assume as rédeas do governo. A vila de São Paulo, por essa época, era muito cobiçada devido às hortas, pomares de marmelo e vinha, e lavouras de mandioca, milho, trigo, centeio, alguma cana e, pouco depois, algodão, que podiam, ao contrário do monocultivo canavieiro, ser cuidados pelo proprietário e sua família, de maneira muito parecida com o tipo camponês europeu. Os mais abastados podiam ter alguns escravos indígenas, para o trabalho em seus domínios. O clima era também mais salutar.

No planalto, a vila de São Paulo de Piratininga, com suas culturas de sobrevivência e sua população grandemente aumentada pela vinda de muitos vicentinos, sem canaviais e sem engenhos que lhe trouxesse riquezas, era a das mais pobres da Colônia, ficando isolada do litoral pela muralha da serra de Paranapiacaba (serra do Mar). Em 1606, tinha cento e noventa moradores, sendo de condições muito precárias, pois não interessava à Coroa Portuguesa a expansão da agricultura em regiões longínquas do litoral. Restava, assim, aos paulistas, o sertão desconhecido. A alternativa econômica era a busca de ouro e pedras preciosas, além de índios, principalmente daqueles catequizados pelos jesuítas, que valiam muito mais, pela pacificidade e adestramento em agricultura e trabalhos manuais ─ os “negros da terra” ou “gentios da terra” ─, como passaram a ser conhecidos. A presença do grande rio Anhembi (Tietê) e de seus afluentes facilitava o adentramento ao sertão. Como consequência, muitas entradas e bandeiras partiram de São Paulo, algumas para combater índios hostis, em suas aldeias.

Continua.

Referência.
Paschoal, A.D. História de uma família. Genealogia à luz da história. Tomo I. Séculos VIII a XIX. 430 p. Piracicaba, 2007.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Aspectos Históricos da Agricultura Paulista: Parte 2. Os primeiros engenhos


Adilson D. Paschoal
Professor Sênior da ESALQ-USP

Ano de 1532. Povoadores da Primeira Vila do Novo Mundo. Fundação de São Vicente. Aprendendo técnicas agrícolas com os Índios. Os primeiros engenhos de cana-de-açúcar. O açúcar passa a ser exportado pelo porto de Enguagaçu (Santos).


Passado um ano e dois meses de viagem, duas naus da esquadra de Martin Afonso de Sousa aportam na ilha de São Vicente, no dia 22 de janeiro de 1532, local em que o capitão-mor resolve estabelecer o primeiro núcleo de colonização, por já existir aí um povoamento, não existirem índios hostis e porque seria mais fácil a defesa contra possíveis ataques bugres vindos do continente. Em 1510, o degradado português Mestre Cosme viera para São Vicente onde fundara um povoado fazendo fortuna com negócio de escravos indígenas, com troca de mercadorias entre índios e moradores, e com suprimentos e água para navios que aí aportavam em direção ao rio da Prata e ao Paraguai. Já havia nesse lugar doze casas de taipa, muitas ocas, armazém, embarcações, uma pequena torre de pedra para defesa e um porto, chamado das Naus, para embarcações de grande calado.

Naus portuguesas aportam em São Vicente, no porto das Naus, no dia 22 de janeiro de 1532, trazendo para o Brasil os primeiros colonos e mudas de cana-de-açúcar. Porto das Naus. Óleo de Benedito Calixto, Prefeitura de São Vicente.

Em Bertioga, Antão e seus amigos fidalgos a serviço do rei ajudam na construção de um forte, e, em São Vicente, iniciam a primeira vila do Brasil, cujas moradias são construídas usando-se materiais que aí abundavam: madeira, barro e sapé. Poucos dias depois do desembarque em Bertioga, temem pelas suas sortes.
Subitamente, à frente deles, trezentos a quinhentos índios armados de arco e flecha, pintados para a guerra, de negro de jenipapo e vermelho de urucum, posicionam-se em atitude ao mesmo tempo hostil e de curiosidade. Armas são sacadas no forte. O conflito parece inevitável. De repente, de dentre os silvícolas, gritos se ouvem em língua que lhes era familiar. Um homem branco então se apresenta, a passos largos, dizendo que nada temessem, pois aqueles eram índios amistosos. Mal crendo no que ouviam e viam, pois sempre acreditaram que naquelas plagas do mundo novo só existiam feras e bárbaros comedores de gente, os pioneiros deparam-se com o náufrago e judeu português João Ramalho e o sogro dele, o cacique Tibiriçá.

Os índios ─ foi-lhes dito depois ─ eram guaianazes, habitantes das planícies, menos perigosos do que os tamoios, e, da mesma forma que os carijós e os patos, não eram antropófagos. Ao contrário deles, não guerreavam em matas fechadas e não matavam seus prisioneiros, trazendo-os para suas aldeias onde os escravizavam. Disso aprenderam os portugueses quando precisaram de mão-de obra para as suas lavouras de cana e de subsistência, organizando as primeiras entradas à busca de índios. Os guaianazes viviam da caça, da pesca e de frutos da floresta; não faziam agricultura e por isso eram totalmente inadequados para as lavouras. Sem eles, porém, dificilmente os colonos teriam sobrevivido aos tupinambás. Não tinham ocas senão tocas cavadas no chão, servindo-lhes de cama
folhas cobertas por peles de animais caçados.

Fundação de São Vicente, junto à praia, onde já existia um pequeno povoamento. Óleo de Benedito Calixto, Museu
Paulista, São Paulo.


Meses se passam e a recém fundada vila de São Vicente, a primeira povoação em todo o novo mundo, cresce com as moradias de taipa, cobertas de sapé, algumas de telhas portuguesas, que os índios ajudam a construir, e as lavouras de cana-de-açúcar, que ajudam a implantar.

O trabalho no campo é árduo. Compactas matas, de árvores de grande porte, têm de ser derrubadas para o preparo da terra. Os portugueses aprendem com os índios a técnica da coivara, de derrubada seguida de queima e plantio nas cinzas.

Com as terras de sesmaria, que Pedro de Góis e José Adorno recebem, a cana-de-açúcar logo começa a produzir satisfatoriamente. Em 1532, Pedro de Góis estabelece o primeiro engenho de açúcar: o engenho Madre de Deus. Um ano depois, em 1533, José Adorno põe em operação o segundo deles, chamado Engenho São João. Ambos os engenhos foram implantados na ilha de São Vicente.

Passam a produzir açúcar, aguardente e rapadura já na primeira safra de cana, em 1533. A experiência de Antão Leme ajuda nesse mister, tendo ele também recebido terras de sesmaria, cultivadas com cana, culturas de subsistência e algum gado. Ao rei chegam as boas notícias vindas da Colônia, e, com elas, também muitos pedidos de terras.




Os primeiros engenhos de açúcar utilizavam mão de obra escrava indígena, depois substituída por mão de obra escrava africana. Ilustrações de autores desconhecidos.

Em meados de 1533, corre a notícia que Martim Afonso retornaria a Portugal. A incerteza quanto ao futuro da vila domina os colonos pioneiros, que viam partir, com as naus, as suas mais vivas esperanças. Martim reacende-lhes os ânimos, prometendo mandar outras frotas com mais engenhos e facilidades e, sobretudo, trazendo-lhes as esposas e os filhos. Antão Leme e os demais fidalgos povoadores não sabiam ainda que faziam parte da Capitania de São Vicente e que Martim Afonso era o seu donatário e governador. A notícia não havia chegado ao Brasil, informando que D. João III havia criado, em 1532, o sistema de capitanias hereditárias.

Nesse mesmo ano de 1533, graças a uma sociedade criada por Martim Afonso com o rico negociante flamengo João Veniste (Johan van Hielst), estabelece-se na capitania o terceiro engenho de açúcar, denominado do Senhor Governador, em terras férteis de Enguaguaçu (depois Santos). Três anos depois, em Enguaguaçu, o sertanista português Brás Cubas recebe a mais vasta sesmaria do litoral da capitania de São Vicente. Posteriormente, a sociedade se desfaz com a venda das instalações ao alemão Erasmo Scheter, quando passa a se chamar engenho São Jorge dos Erasmos. Tal benfeitoria seria adquirida mais tarde por Braz Esteves, fidalgo madeirense, administrador e técnico em açúcar e aguardente.

Muitos outros engenhos foram estabelecidos depois, passando a Colônia a exportar açúcar e a produzir aguardente e rapadura para consumo interno. Progredia, assim, rapidamente, a nova vila.

A ausência de Martim Afonso desestrutura completamente a vila de São Vicente. Semicivilizados portugueses e bárbaros silvícolas logo se misturam em mamelucos ainda piores e mais violentos. Escraviza-se o índio para trabalho na agricultura e nos engenhos. Entre os europeus predominam a crueldade e a desonestidade, faltando-lhes os mais elementares princípios de decência.

Logo após o retorno de Martim Afonso, São Vicente é atacada e destruída por hordas de indígenas e espanhóis comandados por Mestre Cosme, que, dessa forma, se vinga, por ter perdido tudo o que levara vinte anos para construir. Seus moradores fogem para Enguaguaçu, escapando a maioria com vida quase como que por milagre.

Em 1541, o porto de embarque de mercadorias é transferido de São Vicente para Enguaguaçu. A partir de 1543, o povoamento de Brás Cubas passa a se chamar Porto de Todos os Santos, tornando-se o segundo da Colônia. Em 1544, um terrível maremoto inunda São Vicente destruindo a casa do conselho, a igreja e o pelourinho. Perdida toda a documentação histórica, os camaristas de São Vicente passam a proteger mais os livros de atas. Desestimulados, muitos dos pioneiros mudam-se para a nova região, onde Brás Cubas constrói um hospital a que chama Santa Casa de Todos os Santos. Por ter posição mais favorável do que São Vicente, Santos dá novo alento à produção de cana, passando por aí todo o açúcar exportado, servindo também de refúgio aos vicentinos durante os ataques dos índios. Em 1545, a vila de São Vicente é transferida para local mais afastado do mar, junto ao morro de Santo Antônio.

Elevação do Porto de Todos os Santos à categoria de vila, em 1545, com leitura do foral de vila por Brás Cubas, junto ao pelourinho. Óleo sobre tela de Benedito Calixto, Museu dos Cafés do Brasil, Santos.

Por resolução da Casa do Conselho de São Vicente, dois juízes ordinários são nomeados em 1544, por voto direto, para os dois povoamentos. Para São Vicente é escolhido, pela sua autoridade, dedicação à vila que viu nascer, e pelo seu caráter íntegro, Antão Leme, que, dessa forma, torna-se o primeiro juiz da vila e, possivelmente, o primeiro do Brasil. Um ano depois, ele participa do ofício que eleva Santos à categoria de vila, por ato de Brás Cubas, nomeado o novo capitão-mor da Capitania de São Vicente.

Em 1549, Antão Leme vê, com muita esperança de finalmente se estabelecer a ordem em São Vicente e em Santos, a vinda ao Brasil do primo de Martim Afonso, Tomé de Sousa, como seu primeiro governador geral, embora sabendo que ele iria se estabelecer em local muito distante, em Salvador, na Bahia de Todos os Santos. É tal o seu entusiasmo que, finalmente, decorridos vários anos, pôde aconselhar o seu filho Pedro Leme a vir para o Brasil. Ele próprio voltara à ilha da Madeira, onde vem a falecer.

Continua.

Referência.
Paschoal, A.D. História de uma família. Genealogia à luz da história. Tomo I. Séculos
VIII a XIX. 430 p. Piracicaba, 2007.

Obs. “O Monumento Nacional Ruínas Engenho São Jorge dos Erasmos – Base Avançada de Pesquisa, Cultura e Extensão da USP – é um órgão da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo, situado na divisa entre os municípios de Santos e São Vicente, no estado de São Paulo. É a mais antiga evidência física preservada da colonização portuguesa em território brasileiro e sua data de construção remonta a 1534.”